“Made on Earth” da BBC, uma história do comércio global e suas tensões atuais

Dona de loja no Yiwu Market, China. Made on Earth BBC News
Dona de loja no Yiwu Market, China. Made on Earth BBC News

Por Tim Bowler, repórter de Negócios da BBC News

A taxa de crescimento do comércio global pode ter diminuído devido a disputas comerciais, mas sua importância é vital para prosperidade e saúde econômica. Essa é uma das abordagens de Made on Earth, a nova séria da BBC News.

Por Tim Bowler, repórter de Negócios da BBC News

De bicicletas a uísque, de bolsas a semicondutores. A nova série de reportagens da BBC News, Fabricado na Terra, explora oito produtos do cotidiano e as oito intricadas redes de comércio global que os levam ao mercado. Mesmo com o aumento das tensões comerciais, o mundo nunca esteve tão conectado, e o volume do comércio internacional continua a aumentar.

Comércio global costumava ser um tema apenas levemente valorizado – amado por economistas e confinado às páginas de economia e finanças dos jornais. Mas importantes disputas comerciais mudaram esse quadro, reforçando seu valor e sua importância para todos nós.

Ao olhar para as manchetes do noticiário, é fácil pensar que o fluxo comercial esteja diminuindo. A disputa entre os Estados Unidos e a China teve Washington impondo tarifas sobre US$ 360 bilhões em produtos chineses, enquanto Pequim retaliou com taxas sobre mais de US$ 110 bilhões em produtos americanos.

Em outros lugares, a disputa comercial entre Japão e Coreia do Sul ameaça a produção de telefones celulares, computadores e outros produtos eletrônicos, enquanto a União Europeia e o Reino Unido enfrentam um potencial impacto em decorrência de um Brexit desordenado.

Mesmo assim, se você se afastar das manchetes e olhar para a situação de forma mais ampla, as coisas parecem diferentes. O mundo comercializou um total de mais de US$ 25 trilhões em bens e serviços em 2018 – o que é mais de 50 vezes o valor dos produtos diretamente afetados pelas tarifas impostas por Estados Unidos e China.

O crescimento do comércio global pode estar modesto, numa taxa de 3,2% neste ano – aumentando para 3,5% em 2020 –, de acordo com as previsões do Fundo Monetário Internacional, mas a tendência ainda é claramente de aumento.

Quando mais um país negocia com seus vizinhos, melhor é o estado de sua economia. Economistas dizem que as nações cujas economias internas estão crescendo significativamente também tendem a ter taxas de crescimento de comércio mais altas, em termos de parcela de sua produção econômica.

“Políticas liberais de comércio que permitem um fluxo irrestrito de bens e serviços acirram a competição, incentivam a inovação e fomentam sucesso”, diz a Organização Mundial do Comércio.

Civilização e comércio

O comércio existe desde que os humanos formaram sociedades civilizadas. No terceiro milênio AC, as cidades-Estado sumerianas na Mesopotâmia – atual Iraque – negociavam com a civilização harapeana do Vale do Indo.

No segundo milênio AC, na Idade do Bronze, Grécia, Egito, Babilônia e o Império Hitita na Turquia comercializavam regularmente entre eles – e com mineiros da rocha lápis-lazúli no distante Afeganistão. Foi um comércio que chegou a um final dramático quando suas civilizações interconectadas desmoronaram – talvez o primeiro exemplo que conhecemos de uma recessão “global”.

Nesta série nós olharemos para itens como temperos da Ásia, café da África e da América do Sul, assim como bens de couro de luxo da Itália, que há muito tempo têm sido os produtos centrais desse sistema internacional de compras e vendas.

Na China nós examinaremos a importância do papel através dos séculos, agora ensaiando uma volta no nosso mundo digital. Muitos países “não mais consideram o papel um desperdício, mas uma mercadoria”, diz Simon Ellis da Associação de Reciclagem.

Olhar para esses produtos específicos nos permite obter uma melhor compreensão da imensa variedade do comércio nos dias de hoje. Por exemplo, pegue as exportações de flores de países como Peru ou Quênia, que cresceram rapidamente graças às melhores conexões de transporte aéreo. Agora é um negócio de US$ 16 bilhões – muitos e muitos buquês.

Ou veja a bicicleta, criada no século 19. No Reino Unido 50 anos atrás, a maioria delas era produzida em uma única cidade – Nottingham. Hoje a indústria mundial vale US$ 45 bilhões e baseia-se numa integrada corrente global de fornecedores com “aros da Bulgária, titânio da China, metal de Taiwan, engrenagem dos EUA”, diz Will Butler-Adams, da fabricante de bicicletas britânica Brompton Bikes.

Mas foi o chip semicondutor do século 20 que foi mais longe que qualquer outro item individual de tecnologia em aprofundar muitas das nossas conexões. Na verdade, o consumidor médio ocidental usa hoje, diariamente, serviços de 40 satélites orbitando o planeta, graças a chips de computador.

Enquanto o silício – o elemento no coração dessa indústria de US$ 500 bilhões – é encontrado em 90% da crosta terrestre, boa parte vem de apenas uma pequena cidade no Estado americano da Carolina do Norte. “Isso é um pouco louco”, diz o gerente de mineração Rolf Pipper, “imaginar que dentro de quase todo telefone celular e chip de computador você vai encontrar quartzo vindo de Spruce Pine”.

Mudanças de padrão

Na história moderna, houve duas ondas de globalização. A primeira começou depois das Guerras Napoleônicas, em 1815, e terminou com a Primeira Guerra Mundial. A segunda começou depois de 1945 e continua até hoje, com o volume de bens exportados atualmente sendo mais de 40 vezes maior do que era em 1913. Cerca de 25% de tudo que é produzido é exportado para algum lugar.

Agora estamos vendo uma outra mudança radical. Se demorou séculos para que as economias do mundo passassem da agricultura para a produção industrial, a ascensão do setor de serviços está ocorrendo muito mais rapidamente nos últimos 20 anos – e o setor agora representa 68% de todo o PIB (Produto Interno Bruto) global.

Ainda assim, ainda persistem barreiras para a comercialização internacional de serviços – colocando um freio no crescimento econômico. “De que vale produzir bens de padrão internacional se você não tem acesso suficiente a serviços de apoio a negócios, como bancos, contabilidade e seguros, para tornar viáveis as operações globais?”, questiona Simon MacAdam, economista global da Capital Economics.

Quando se trata de exportar, pequenas e médias empresas (PMEs) são geralmente pouco representadas. Empresas de maior porte têm mais capacidade de absorver os custos de desbravar novos mercados no exterior, e empresas menores podem muitas vezes ter dificuldade em achar informação relevante de que elas precisam dentro do prazo exigido.

Porém, mudanças recentes no cenário de comércio global, como o avanço das cadeias globais de valor (CGVs) e a transformação digital, oferecem novas oportunidades para PMEs se integrarem à economia global.

Grandes flexibilidade e capacidade para customizar e diferenciar produtos podem dar a PMEs uma vantagem competitiva em mercados globais, já que elas podem responder rapidamente a mudanças nas condições de mercado e a ciclos de vida de produtos cada vez mais curtos.

O comércio futuro

Então, o que virá agora?

As primeiras décadas do século 21 foram consideradas como um anúncio de um “século da Ásia”. Enquanto críticos podem citar estas palavras, muitas vezes questionadas, de Zhou Enlai – “ainda é cedo demais para dizer” –, o que é certamente verdade é que padrões comerciais estabelecidos mudaram radicalmente.

Nós vimos a ascensão de novos grupos de países como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e novos acordos comerciais como o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, ou CPTPP (entre Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã), que criou a terceira maior área de livre comércio do mundo, depois do Nafta e da União Europeia.

Defensores de um comércio mais livre dizem que, apesar de a globalização causar tensões políticas em alguns países, com mudanças nos padrões de emprego, recuar para um simples protecionismo simplesmente agravará os problemas, em vez de resolvê-los.

O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, diz que governos deveriam resolver suas diferenças políticas para que os países possam se concentrar no comércio e responder aos “verdadeiros desafios da economia atual – a revolução tecnológica e o imperativo de criar empregos e promover desenvolvimento”.