Brasil: uma China Tropical

Historiador Zhou Shixiu

As relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China iniciaram em 1974, há 45 anos, mas a história comprova que a relação cultural dos países é tão antiga quanto o velho continente. O Fórum Brasil China conversou com o historiador Zhou Shixiu, um dos principais contribuintes para o desenvolvimento da cultura chinesa no Brasil. Em uma série de reportagens apresentaremos as semelhanças entre Brasil e China, esquecidas no tempo.

O Brasil é uma China Tropical! Provavelmente você está se questionando se essa frase faz algum sentido. Mas, foi este o pensamento que inspirou por muitos anos o sociólogo e historiador brasileiro Gilberto Freyre, conhecido pelo seu livro Casa Grande & Senzala. Freyre acreditava que o Brasil era uma China Tropical e em diversos estudos mostrou como a cultura e tradições chinesas foram absorvidas pela cultura brasileira durante a colonização dos portugueses. As teorias de Freyre deram origem ao livro “China Tropical” publicado em 2003.

Sociólogo Gilberto Freyre

Se você ainda está confuso, não se preocupe. Também tive os mesmos questionamentos até conhecer o professor e historiador chinês Zhou Shixiu, que me recebeu no seu escritório na Avenida Paulista e compartilhou comigo todas as experiências que o levam a acreditar que a relação entre o Brasil e a China é mais antiga do que imaginamos.

Zhou Shixiu é Diretor do Centro de Investimentos, Cooperação e Negócios Brasil-China e professor titular aposentado da Universidade de Hubei, onde também foi diretor do Departamento de História. Historiador e Pesquisador, no seu currículo também reúne experiências como ex-vereador da cidade de Wuhan, capital da província de Hubei.   Ele chegou no Brasil em 1989, mas sua conexão com a relação cultural de ambas as nações começou em Hubei dois anos antes, quando uma comitiva do Ministério de Educação o escolheu para ser o primeiro professor universitário chinês em dar aula de história e cultura chinesa no Brasil.

O acontecimento mudou sua vida e o transformou em testemunho vivo do intercambio educacional e cultural entre o Brasil e a China.  Passou meses no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro pesquisando sobre as origens da troca cultural entre os países. Sua curiosidade lhe rendeu algumas conquistas: foi o primeiro chinês a publicar um livro de história do Brasil na China e inaugurou o primeiro Instituto Confúcio no Brasil.

Historiador Zhou Shixiu

As origens

Sentado em uma sala que tem como fundo um quadro da Muralha da China, Zhou começa seu relato com a frase “Montanhas e mar não podem impedir amizade”. É assim que ele justifica o fato de que, apesar da distância territorial entre Brasil e China, nada impediu a miscigenação cultural entre chineses e brasileiros.

Mas, qual é a data em que a cultura brasileira e a chinesa se misturam?

Para Zhou, o primeiro contato cultural ocorreria ainda no século XVI, quando os portugueses chegaram a Ásia, em 1511, logo entraram no Mar do Sul da China em 1517 para finalmente se estabelecer em Macau (ilha chinesa). “Os portugueses chegavam a Macau e logo viajavam para o Rio de Janeiro, Salvador. Muitos funcionários, familiares levaram consigo chá chinês, seda, foi assim que muitos artigos culturais chineses chegaram ao Brasil pelo império marítimo português”, explica.

Daquelas primeiras trocas culturais existem heranças que permanecem até hoje. É o caso das capas utilizadas pelos ministros do Supremo Tribunal Federal em Brasília. Segundo Zhou, este seria um costume chinês da dinastia Ming (1368-1644) que comandava a China na época que os portugueses chegaram a Macau.

Foto: Pablo Valadares/AE
Coreto

O sociólogo Gilberto Freyre encontrava sinais de cultura chinesa no Brasil em objetos como o leque, a sombrinha, a bengala, a colcha de seda, porcelana da China, o palanquim e o chapéu de sol. Em estruturas como o coreto e o telhado das casas (caído e recurvado). E na adoção de plantas e especiarias como o coqueiro, canela e fruta-pão.

Leque Chinês
Sombrinha

Historicamente o contato entre portugueses e chineses foi essencial para levar a cultura oriental a outros continentes. “Os portugueses tentaram colonizar a China, mas não conseguiram. Então inventaram a desculpa que precisavam de um pedaço de terra para secar as mercadorias. E foi assim que permaneceram em Macau por 300 anos” lembra Zhou.

Bicho de Seda

Durante suas viagens à América os portugueses levaram roupas, costumes, o chapéu e o leque. Mas, o historiador adverte que não foram os únicos. “Os padres italianos roubaram as minhocas de seda. A China proibia a saída dos bichos do território, mas eles camuflavam as minhocas dentro das bengalas e levavam para Europa”, explica.

 

Uma xícara de Chá

Mesmo com todos os indícios de intercambio cultural entre Brasil e China, os estudiosos consideram como data inicial o ano de 1808, período em que a família real portuguesa desembarcou no Brasil.

A família real era apaixonada pelo chá chinês que consumia continuamente em Lisboa. Estando no Brasil, sentiram falta do chá chinês e então pediram ao governador de Macau que lhes exportasse o produto. O chá cultivado em Macau era diferente, uma espécie de chá verde que possuía compostos benéficos para a saúde.

Mas, com o tempo, receber apenas o chá exportado passou a ser insuficiente para a família real. Pediram, então, ao governador de Macau, que enviasse um grupo de camponeses chineses para cultivar chá no Brasil.

Zhou conta que os portugueses e os brasileiros gostavam muito da cultura chinesa e seus produtos. No entanto, o sociólogo Gilberto Freyre adverte no seu livro Casa grande & Senzala da influência inglesa e francesa na ruptura dos laços Brasil-China. “Na época, ingleses e portugueses tinham uma relação muito especial. Foram os ingleses que cortaram os laços dos portugueses com a China, garantindo que tinham capacidade de arrumar todos os produtos até então vindos da relação com a China. Foi nessa época que as costumes europeias chegam no Brasil”, comenta.

Os erros da dinastia Qing

Mesmo com todas essas experiências a dinastia Qing, última dinastia imperial da China, também errou na construção das relações bilaterais. Em 1850 o Brasil era um país muito grande, mas com poucos habitantes e sem mão de obra. O café brasileiro estava conquistando Europa e a demanda pelo produto era alta, mas o Brasil não tinha mão de obra suficiente para produzir. “Os indígenas brasileiros não estavam colaborando, os negros escravos não estavam acostumados com este tipo de trabalho. Então a Câmara do Brasil decidiu trazer camponeses de outros países, entre as opções estavam Itália, Turquia, mas optaram pelos camponeses chineses” conta Zhou.

O historiador afirma que a dinastia Qing não conhecia bem o cenário mundial nem tinha uma relação oficial com o Brasil, o que teve como conseqüência a perda de uma grande oportunidade de estreitar laços. “O Rio de Janeiro organizou a primeira missão diplomática para China e foi um fracasso. O Brasil ofereceu todas as condições para levar os camponeses chineses, mas a China rejeitou e decidiu manter apenas uma relação comercial” afirma Zhou.

Com o fracasso da missão, o Brasil colocou em prática o plano B: a missão Japão. Para Zhou, o Japão tinha uma mentalidade capitalista naquela época, se reformou politicamente e conhecia bem o cenário mundial. Eles tinham apenas uma limitação: a falta de terra. “Quando receberam a oferta do Brasil, um país rico em terra, de levar seus camponeses, aceitaram na hora. Em 1903 desembarcou o primeiro grupo de camponeses japoneses no Porto de Santos e se formou a maior colônia de imigrantes no Brasil. A China perdeu a chance”, lamenta.

Igreja chinesa no Brasil

Se tem um estado que realmente marcou o historiador Zhou Shixiu, com certeza foi Minas Gerais.

Igreja Nossa Senhora do Ó

Foi lá que, com ajuda de um amigo brasileiro, conheceu a Igreja Nossa Senhora do Ó, em Sabará. A igreja foi construída em 1711 e fica a 30 quilômetros de Belo Horizonte.  Grande foi a surpresa para Zhou quando encontrou arte chinesa no local. “As portas tinham entalhes orientais, havia pinturas com técnicas chinesas. No salão da igreja eu encontrei uma ave típica chinesa, a fênix”, conta.  A Igreja Nossa Senhora do Ó, em Sabará, não é a única a apresentar aspectos da cultura e da arte chinesas. Só em Minas Gerais pelos menos mais oito edificações religiosas apresentam arte oriental.

“Conhecer a Igreja Nossa Senhora do Ó foi um sucesso. Garantiu que antecipasse em 100 anos minha pesquisa sobre relações culturais Brasil-China” conclui Zhou.

  

Foi o estado de Minas Gerais que também deu a oportunidade para o historiador Zhou levar a história do Brasil à China. Na década de 80, ele conheceu os primeiros brasileiros ao ser intérprete de uma comitiva da qual participou o empresário mineiro Benedicto Julio Valladares, dono de uma siderúrgica.

Zhou tornou-se amigo do empresário mineiro que, depois, enviou-lhe alguns livros sobre o Brasil nos quais Zhou se inspirou para publicar o primeiro livro de história do Brasil na China, em 1985. Como resultado vieram os convites de diversas universidades brasileiras e do Ministério da Educação para trabalhar no Brasil.

E foi assim que tudo começou.

Se você quer conhecer mais curiosidades sobre as relações Brasil-China, não perca a segunda parte desta reportagem.