Brasil e China, um intercâmbio cultural, além de trocas comerciais

Roberval Teixeira e Silva na Universidade de Macau. Brasil e China, intercâmbio cultural

Brasil e China, um intercâmbio cultural, além de trocas comerciais

Para o professor brasileiro Roberval Teixeira e Silva, pesquisador e diretor do Centro de Pesquisa de Estudos Luso-Asiáticos da Universidade de Macau (UM) o intercâmbio entre Brasil e China deve ir além das trocas comerciais. É preciso apostar no intercâmbio cultural.

“Temos formado vários alunos que, agora, já criam mais sensibilidade sobre o Brasil. Mas ainda há um trabalho imenso pela frente se quisermos que as interações sino-brasileiras em todos os níveis alcancem um patamar satisfatório”, diz o pesquisador que mora em Macau há 14 anos.

Mas para isso, acredita o professor, é necessário apostar em projetos culturais que ajudem a construir o conhecimento mútuo, uma possibilidade que tem visto distante, especialmente desde o lado brasileiro.

“A ignorância o desconhecimento sobre o outro, em todos os níveis, é o que mais tem trazido sofrimento à humanidade porque se manifesta pelo desrespeito pelo diferente. E o homem dos tempos contemporâneos precisa saber viver as diferenças porque o mundo que inventamos é feito delas”, reflete.

Pesquisas em Macau

O professor Roberval  foi o primeiro brasileiro no Departamento de Português da Universidade e por isso ele percebeu uma série de reações muito interessantes que lhe permitiram entender as dinâmicas da língua portuguesa no mundo e as atitudes linguísticas de diferentes comunidades frente a estas línguas portuguesas, seu principal objeto de pesquisa.

“Eu estava terminando uma fase da vida acadêmica, que era o doutorado, quando recebi um email de Macau falando do interesse em contratar professores para trabalhar com o português como língua não materna. Esta era a área em que estava trabalhando no doutoramento. Depois de várias trocas de mensagens, fomos aprofundando o contato e chegou o momento em que recebi o convite para trabalhar na Universidade de Macau”, lembra o professor.

O convite para trabalhar na UM chegou quando ele estava terminando o doutorado. Hoje ele é também professor assistente do Departamento de Português, Faculdade de Artes e Humanidades (FAH), e foi nomeado recentemente coordenador institucional da Cátedra de Políticas Linguísticas para o Multilinguismo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), na mesma universidade.

A (UM), por sua vez, é um dos principais centro de estudos e de intercâmbio de língua portuguesa na Asia, com oferta de cursos de verão, por exemplo, que no último ano reuniu mais de 450 estudantes do mundo todo, incluindo alunos da Coreia do Sul, do Japão e dos Estados Unidos.

“Era um momento bastante adequado para explorar outros espaços, viver novas experiências e, na verdade, para pesquisar sobre o ensino e a presença da língua portuguesa na Ásia”, diz sobre esses fatores que confluíram na sua trajetória pessoal e acadêmica.

Chineses e brasileiros, muito em comum

Como fruto concreto desse trabalho, Roberval Teixeira e Silva desenvolve  há cinco anos uma pesquisa alocada em São Paulo, para estudar as interações entre brasileiros e chineses em diferentes contextos da vida, e, claro, especialmente, na sala de aula.

“Costumo dizer que tenho uma sorte que não é a de muitos: adoro o trabalho que faço. E basicamente o meu trabalho é o de viver e pesquisar relações humanas. Como nós criamos estes mundos que estão aí, com todas as contradições que eles têm? De que maneira a linguagem, especialmente a língua portuguesa, vai ganhando espaço e estabelecendo novas comunidades que também existem em português?”.

A partir desse caminho ele tem observado e vivenciado as relações entre brasileiros e chineses, dois povos nos que tem encontrado muita afinidade, ao contrário do que se pensa muitas vezes no Brasil

Assim, ele diz que como traços básicos das duas culturas, chineses e brasileiros gostam de se reunir em volta de uma mesa com amigos, além de valorizar muito os laços familiares. E há claro, muitas diferenças que precisam ser ensinadas e conhecidas.

Apesar de tudo, de o português, por exemplo, ser língua oficial na Região Administrativa Especial (RAEM), o que seria um fator de aproximação, Macau não é um lugar onde a presença brasileira se faz sentir de maneira significativa. “O interesse maior vem mesmo dos acadêmicos”, explica.

A cidade ao lado, DongGuan, na província de Guangdong (Cantão), é o distrito chinês com mais brasileiros, mais de 3 mil residentes.