Opinião: Teria Bolsonaro cancelado com Trump por um atraso de apenas 20 minutos?

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Foto: Reprodução Comex Brasil

O presidente Jair Bolsonaro volta para casa com algumas vitórias, mas entre estas não estão “desfazer mal entendidos” nas relações com a China, seu principal parceiro comercial.

Com reunião bilateral marcada para o sábado (29) às 14h30, horário de Osaka Japão, a conversa com o presidente da China Xi Jinping não ocorreu devido a um atraso de vinte minutos do mandatário asiático. Bolsonaro, impaciente, foi embora às 14h50, pegando de surpresa até seus assessores.

Foto: China Hoje

Enquanto Xi Jinping concluía a reunião com o francês, Emmanuel Macron, Bolsonaro optou por cancelar o encontro. O porta-voz da presidência, general Rêgo Barros justificou o cancelamento por motivos de logística. “Esperamos até o presente momento. Já estava bastante atrasado” disse e acrescentou “Como temos horário para decolagem e precisamos retornar ao hotel, o presidente decidiu abdicar dessa bilateral e posteriormente efetivar os contatos necessários para prosseguir com as tratativas entre os dois países”.

Presidente da China Xi Jinping no G20
Foto: Xinhua

O cancelamento de agenda não gerou, aparentemente, nenhuma frustração para o presidente. Não houve manifestações do porta-voz nem dele nas redes sociais. Bolsonaro comemorava ainda sua vitória pelo acordo comercial com a União Européia e o encontro com Donald Trump.

Mais cedo, tentando se mostrar interessado nas relações com Pequim, Bolsonaro prometeu uma visita à China em outubro. Caso a visita não ocorra, ainda terá uma chance de se encontrar com Xi Jinping em novembro, quando este virá ao Brasil para participar da cúpula dos BRICS, marcada para os dias 13 e 14, segundo informações do Portal Planalto.

No Japão, Bolsonaro reforçou com palavras, mas não com atitudes o seu interesse em aprofundar o relacionamento do Brasil com a China. “A China vai continuar fazendo comércio conosco, vamos desfazer qualquer mal-entendido que por ventura possa ter tido. Se bem que eles sabem filtrar as informações”, comentou o presidente nos primeiros dias do evento.

Prioridades

Durante o G20, Bolsonaro deu prioridade a fechar acordos com a União Européia e falar com o presidente dos Estados Unidos, com quem teve um encontro efusivo e cheio de elogios.

Esta é a segunda vez, desde que assumiu o mandato, que o presidente tem encontros com Trump. Inicialmente em março, na sua visita aos EUA, e agora no G20 onde ele não economizou elogios: “É uma grande satisfação estar ao seu lado; sempre o admirei desde as eleições, temos muita coisa em comum, somos dois grandes países que juntos podem fazer muito pelos seus povos. O que nós temos no Brasil, o mundo não tem, estou à disposição para conversar com Trump, fazer parcerias e desenvolver o nosso país”, disse o presidente.

“Gosto muito do povo americano, do Trump, torço pela sua reeleição, espero que nos visite antes das eleições se for possível. Estamos aqui para mostrar ao mundo que a política do Brasil mudou de verdade. Nos interessa e temos um prazer de nos aproximar dos EUA”, reforçou Bolsonaro.

 

 

Na sua conta oficial de Twitter ele também compartilhou vídeos e fotos do encontro com Trump. Já com Xi Jinping, se limitou a compartilhar uma foto do encontro informal dos BRICS.

Até o momento, o presidente brasileiro não visitou Pequim nem se reuniu com Xi Jinping. A missão ficou nas mãos do seu vice (Hamilton Mourão) que esteve em Pequim em maio e afirmou que o Brasil considera a China um parceiro “extremamente estratégico”.

No G20, Bolsonaro se reuniu com Trump, o líder de França Emmanuel Macro, a chanceler alemã Angela Merkel, o Príncipe Mohammad bin Salman da Arábia Saudita e com Narendra Modi, primeiro ministro da Índia.

O valor da China

Além de ser o principal parceiro comercial do Brasil desde 2002 e garantir que a balança comercial do país seja superavitária, é importante ficar de olho na importância econômica das relações entre os dois países. Segundo a Aladi (Associação Latino-Americana de Integração) as exportações do Brasil em 2018 para China somaram 64 milhões de dólares. Já com os EUA, segundo lugar na pauta de exportações brasileiras, a soma foi de 28 milhões de dólares.

Nas importações repete-se o ranking, porém com valores mais próximos. O Brasil importou 36 milhões de dólares em produtos da China enquanto 30 milhões dos Estados Unidos.

As principais exportações do Brasil para China são de produtos primários como soja, derivados de petróleo, minérios de ferro, pastas químicas de madeira e carnes.

Foto: China Hoje

Dois dias antes do cancelamento do encontro entre ambos os mandatários, a China tinha retomado as importações de carne bovina brasileira. Outra grande oportunidade para o Brasil abriu-se após os chineses suspender a importação de carne suína canadense.

Um dia antes de Bolsonaro perder a paciência por vinte minutos, a empresa chinesa CGN comprou três usinas de energia limpa para o Brasil, beneficiando o nordeste brasileiro com uma capacidade de 540 MW.

Não é um segredo que a China tem interesse em investir no Brasil, especialmente em projetos de infraestrutura e tecnologia. O questionamento é: teria Bolsonaro cancelado uma reunião com Donald Trump por um atraso de 20 minutos? Estariam as prioridades econômicas do presidente em consonância com os interesses do Brasil?