Mais de 100 dias de um vaivém nas relações sino-brasileiras

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Seis meses de vaivém com a China
Seis meses de vaivém com a China

A novela dos impasses nas relações sino-brasileiras se iniciou muito antes do presidente Jair Bolsonaro completar 100 dias de gestão, ainda durante a campanha eleitoral, em outubro, quando reiterou uma frase que entona desde 2017: “Os chineses não estão comprando no Brasil, eles estão comprando o Brasil”.

A frase do então candidato, já favorito, provocou mal-estar entre autoridades chinesas. O jornal estatal China Daily advertia em um editorial sobre o custo de o Brasil eleger “Trump tropical”. “O custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na história”, alertava o editorial .

Eleito, Bolsonaro mudou o tom do discurso com o principal parceiro comercial do Brasil, manifestando seu interesse em estreitar relações com a China e marcando uma visita ao país para o segundo semestre de 2019.

Mas, o que realmente aconteceu? Para Suhayla Khalil, doutora em Relações Internacionais e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), este cenário confuso nas relações bilaterais é fruto da incorporação no governo de grupos ideológicos distintos e contraditórios na política nacional e política externa brasileira. É o caso dos olavistas e militares.

“Se ideologicamente, Bolsonaro se aproxima mais de figuras como Trump, é preciso lembrar que a China é uma realidade incontornável. Além de ser nosso principal parceiro comercial, o Brasil é um dos únicos países do mundo que tem superávit comercial com a China. O grande destaque dessa relação é a soja. Além disso, há arranjos importantes para o Brasil como o Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Afastar-se da China nesse contexto constituiria um grande erro estratégico”, explica.

O carro-chefe das exportações à China é a soja

Enquanto na política externa brasileira os olavistas  repudiam as relações sino-brasileiras, os militares e ruralistas pressionam Bolsonaro para manter as boas relações.  “Estes últimos estão ganhando a disputa, o que justifica a mudança de posicionamento do presidente”, diz Khalil.

A visão de Pequim

Há uma década, em 2009, a China superou os Estados Unidos e se tornou nosso principal parceiro comercial. A posição se reforçou em 2017 com 50 bilhões de dólares em exportações brasileiras e em 2018 com um incremento de 97,6%.

Em março, a Cônsul Geral da China em São Paulo, Chen Peijie manifestou em evento na Universidade de São Paulo (USP) as intenções do país de cooperar para o desenvolvimento dos parceiros.  “A China quer um relacionamento duradouro com os países da América Latina, trazendo benefícios mútuos para todas as nações”.

Em entrevista ao Fórum Brasil China, Chen afirmou estar confiante num futuro brilhante para as relações bilaterais.

“Bolsonaro falou com nosso embaixador, enviado especial de Xi Jinping, e garantiu que vai promover a cooperação com a China. Queremos estabelecer parcerias estratégicas em todos os níveis”.

A Cônsul destacou o documento da Política da China para a América Latina e o Caribe (2016-2020) onde o país asiático apresenta 39 propostas de cooperação pragmática no modelo “1+3+6” um planejamento que tem três pilares (comercio, investimento e financiamento) e seis prioridades (infraestrutura, tecnologia da informação, cultura, indústria manufatureira, energia e recursos e inovação científica e tecnológica).

Cônsul Geral da China em São Paulo, Chen Peijie apresenta em evento expectativas sobre o futuro das relações sino-brasileiras. Imagem: Ibrachina

Entre os interesses defendidos pela China nas relações com América Latina estão: a igualdade de participação de todos os países na comunidade internacional, o respeito ao princípio “uma só China” (que proíbe relações com Taiwan). E o incentivo à participação da Nova Rota da Seda “Um cinturão, uma rota” para facilitar as exportações com obras de infraestrutura.

No Brasil, as relações bilaterais envolvem as áreas de agricultura, ciência e tecnologia, mineração, educação, saúde, turismo e infraestrutura.  Desde 2014 os investimentos chineses focaram na energia e infraestrutura, assim como a compra de empresas brasileiras.  É o caso da 99, empresa de transporte individual.  E o projeto Belo Monte que recebeu investimentos da chinesa State Grid para levar energia até o Rio de Janeiro, entre outros.

Contudo,  Suhayla Khalil avalia que o relacionamento Brasil-China ainda é incerto e dependerá muito das visitas prometidas do vice-presidente Hamilton Mourão e Bolsonaro neste ano e seus desdobramentos. “A atuação do Brasil na cúpula dos BRICS em novembro também será importante. China não deixou para trás totalmente as declarações feitas por Bolsonaro nas eleições e está aguardando os próximos passos do governo brasileiro” aponta.

O vaivém brasileiro

Além das declarações feitas por Bolsonaro em outubro, houve algumas gafes, como sua  visita a Taiwan, no começo da sua campanha, desrespeitando o princípio de “uma só China”. Assim como a tentativa de alinhamento com Estados Unidos, representado na visita do presidente a Washington. “O contexto atual é de uma Nova Guerra Fria, supera uma guerra comercial, EUA e China estão disputando pela nova ordem mundial, essa luta está longe de ter fim” explica Khalil.

Outro fator de risco seriam as críticas do ministro de Relações Exteriores Ernesto Araujo com grupos, como os BRICS, o que pode gerar prejuízos na economia – 30% dos produtos brasileiros foram exportados em 2018 a países deste bloco.  Os militares vêm no Banco de Desenvolvimento dos BRICS uma chance de alavancar a infraestrutura brasileira.

Em maio, com o objetivo de restabelecer a normalidade das relações bilaterais, o vice-presidente Mourão e a ministra da Agricultura Tereza Cristina vão visitar China. Khalil conclui que tanto EUA como China são parceiros importantes para o Brasil, mas se alinhar com um deles traduzirá perdas estratégicas. “A saída para o Brasil nos próximos meses deve envolver decisões pragmáticas, para manter e ampliar o comércio e investimentos com ambos parceiros tradicionais” aconselha.