Caligrafia Chinesa: a arte da emoção e da longevidade

Os efeitos da Caligrafia são comparáveis ao Taí Chi Chuan ou ao Kung Fu, compara o professor Liu Tsu Te.

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Ao olhar Liu Su Te (77), presidente da Associação de Arte e Caligrafia Chinesa do Brasil, deslizar o pincel de cabo acoplado em uma folha vermelha e desenhar ideogramas chineses de cor preta, é possível entender o significado de concentração.  O conheci assim, extremamente focado na sua arte, no meio da agitação e dos altos decibéis do 4º Festival das Lanternas. Ele e suas três alunas apresentavam a caligrafia chinesa para os visitantes. Ao redor da mesa de Liu Su Te, uma longa fila de pessoas o esperava para levar uma recordação para casa, seja o nome em shūfǎ (caligrafia) ou uma frase de prosperidade.

O cenário era a festa de encerramento do Ano Novo Chinês, que ocorreu no dia 16/02 no Parque do Ibirapuera organizado pelo Instituto Confúcio. Liu Su Te fazia parte das instituições convidadas para difundir a cultura chinesa. Mas, esta missão de integração cultural começou muito antes, exatamente há 28 anos quando a Associação foi fundada no Brasil “Hoje somos 120 membros, a maioria em São Paulo e procuramos manter a tradição da arte da caligrafia chinesa entre imigrantes e descendentes e difundir aos brasileiros”, afirma.

Liu Su Te (77), presidente da Associação de Arte e Caligrafia Chinesa do Brasil no 4º Festival das Lanternas

Liu Su Te é acupunturista e migrou para o Brasil há 43 anos, onde formou uma família com três filhos e três netos. A Associação de Arte e Caligrafia Chinesa do Brasil surgiu 15 anos depois. Ele descreve a caligrafia chinesa como elemento importante da cultura do seu país “Lá desde crianças começamos a escrever com pinceis as letras chinesas”, conta. No entanto, acredita que no Brasil os descendentes chineses passam por um processo de perda cultural o que preocupa a Associação. A rotina e a educação em português nas escolas diminuem o contato das crianças e jovens com a caligrafia chinesa, já nos adultos a rotina profissional e a luta por ganhar a vida deixam pouco tempo para se dedicarem a esta arte.

“A procura por praticar caligrafia chinesa é maior entre veteranos e aposentados, pelos seus múltiplos benéficos. Caligrafia é bom para a longevidade”, conta.

Uma das principais preocupações da Associação de Arte e Caligrafia Chinesa do Brasil é que os jovens descendentes de imigrantes podem estar perdendo sua conexão com a arte

A caligrafia chinesa é conhecida no mundo por contribuir com uma boa saúde física e mental, e por sua estreita relação com a longevidade entre os artistas que a praticam. Entre os benefícios psicológicos estão: melhorias na capacidade de concentração, redução da ansiedade e estresse, disciplina e persistência. “Quando você está fazendo caligrafia você concentra a mente, esvazia a cabeça e reduz a ansiedade. Os efeitos são similares aos benefícios do treino de Tai Chi e Kung Fu” explica Liu. Estes benefícios não são exclusivos dos adultos, crianças hiperativas, por exemplo, podem ficar menos agitadas pela concentração requerida ao escrever.

 

 

 

 

 

 

 

 

Impacto Cultural

Com uma história de mais de cinco mil anos, a caligrafia chinesa ou Shūfǎ se tornou a mais elevada forma de arte visual na China e representação da sociedade, sendo valorizada no mesmo nível que a pintura. “Se você entrar em uma casa chinesa e nesse lar tem uma pintura bonita, isso significa que aquela família entende de beleza ou tem condição econômica para adquirir uma pintura. Mas, se você não encontrar uma caligrafia nesta casa isso quer dizer que o nível cultural desta família não é elevado. Se um lar possui caligrafia chinesa então a família tem educação alta, independente da condição financeira”, explica Liu Su Te.

Desta forma, quando mais uma pessoa aprender de caligrafia chinesa, mais entenderá de arte e cultura do país. Outro benefício cultural está relacionado à literatura chinesa, já que a pessoa precisará escolher o que escrever entre frases, palavras conhecendo mais da literatura local.

Mas, como aprender a arte da caligrafia? O primeiro passo segundo Liu é aprender chinês (mandarim) e os caracteres chineses (logogramas).

A caligrafia é considerada uma forma de expressar a personalidade e emoções por meio de caracteres, uma espécie de dança silenciosa. Desta forma os calígrafos usam os pinceis para transparecer as mudanças de força e movimento.  Os caracteres chineses podem ser organizados em seis categorias conhecidas como Liu Shu ou “seis métodos da escrita”: hsiang hsing básico (elementos pictóricos); chih shih (elementos simbólicos); hui Yi (elementos pictóricos concretos e simbólicos abstratos); hsing sheng (elementos fonéticos e pictóricos); chia chieh (caracter usado pelo valor fonético); chuan Chu (caracter com novo significado e escrita modificada atribuída ao significado original).

Usando estes métodos surgem estilos diferentes que originam cinco categorias de escrita: Chuan Shu (Escrita de Selo), Li Shu (Escrita Oficial), K’ai Shu (Escrita Normal), Hsign Shu (Escrita Corrente) e Ts’ao Shu (Escrita Cursiva).

Além disso, serão necessárias as ferramentas conhecidas como quatro tesouros do estudo: papel, a tinta, a pedra de pintar e o pincel.

Liu Su Te (77) já visitou mais de 30 países para apresentar caligrafia chinesa

Intercâmbio

Por ser uma arte tão valiosa e abstrata a Caligrafia chinesa tem despertado o interesse de outras nações ao longo do tempo. Liu Su Te, já esteve em mais de 30 países fazendo apresentações, tais como Malásia, Indonésia e Singapura, onde em 2018 recebeu um prêmio da presidente Halimah Yacob, fã desta arte. Há quatro anos, também esteve em Paris no Museu do Louvre levando a caligrafia chinesa à França em exposição. ”Todas essas oportunidades foram motivo de grande honra, porque fazer um intercambio cultural é importante. O ensino da caligrafia é tradição, representa nossa sociedade, a longevidade e queremos difundir isso”, conclui.

Em São Paulo a Associação de Arte e Caligrafia Chinesa do Brasil realiza dois eventos ao ano para difundir esta arte que expressa emoção e elegância.