Controle a serviço da segurança

Declaradamente incentivador da inovação tecnológica, o governo chinês já faz uso dos frutos dessa corrida. Mas também tem cobrado quem deixa valores essenciais em segundo plano, tais como segurança. A Didi que o diga, após recentes casos trágicos envolvendo seus motoristas.

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Robôs policiais, cães com câmeras de realidade virtual e sistemas de inteligência artificial que rastreiam o comportamento online. Todo mundo já sabe que o governo chinês tem colocado as mais recentes tecnologias ao seu favor a fim de promover a segurança pública e minar possíveis ameaças ao sistema. Com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, o controle assume formas cada vez mais sofisticadas para conter a violência, o terrorismo e crimes tais como o tráfico de drogas, tratado com pena de morte em terras chinesas.

E as novidades chegam em alta velocidade: óculos que reconhecem uma pessoa entre milhares em apenas 3 segundos, câmeras que identificam carros, drones que monitoram fronteiras e softwares que leem dados de sistemas operacionais considerados seguros, como o iOS, da Apple. Enquanto alguns criticam a invasão de privacidade de tais tecnologias, diversas empresas entram em uma acirrada competição para atender à crescente demanda do país por serviços de segurança.

“Vamos dizer que você vive em Shanghai, uma cidade com 24 milhões de pessoas. É desafiador para o governo policiar essa enorme população. Isso seria impossível sem tecnologia. Mesmo tendo muitas câmeras instaladas, seria uma tarefa difícil. Não se pode assistir a todos os vídeos e fazer uma busca. Além de tomar muito tempo, isso requer muitos recursos para se conseguir um resultado significativo diante de tanta informação coletada. Mas a inteligência artificial pode fazer isso de forma fácil, usando a infraestrutura já existente”, explica Zhu Long, co-fundador e CEO da Yitu Technology, cujas plataformas de reconhecimento facial já estão sendo usadas em mais de 20 departamentos regionais de segurança pública e em mais de 150 sistemas municipais chineses.

O governo é um dos principais clientes da Yitu Technology e de muitas outras companhias do ramo. Porém, empresas com ou sem participação pública estão em uma busca crescente por inovações que desenvolvam processos mais seguros e ágeis. Tudo isso para atender aos requisitos operacionais estabelecidos pelo governo e satisfazer este enorme mercado consumidor, cada vez mais conectado e exigente. Não cumprir tais requisitos, significa passar pelo duro escrutínio público.

Didi paga alto preço por negligência

Um exemplo disso são os acontecimentos dramáticos enfrentados nos últimos dias pela Didi Chuxing, gigante chinesa da área de tecnologia aplicada ao transporte de passageiros. Em apenas 3 meses, a empresa esteve envolvida em dois episódios trágicos envolvendo motoristas do Hitch, seu serviço de caronas. A primeira passageira foi violentada e morta em maio, na província de Henan, e a segunda, no dia 24 de agosto, na província de Zhejiang.

“Esses dois terríveis incidentes que violaram a segurança e a vida de passageiros expuseram as brechas operacionais da plataforma da Didi Chuxing”, disse o Ministro dos Transportes após o último evento ocorrido no dia 24. “O Ministério exige que a Didi pare de fazer promessas vazias e dê passos concretos para garantir a segurança dos passageiros”, completou ele.

O assassino do segundo episódio foi encontrado e preso já no dia 25. Mas, está cabendo à Didi responder por negligência. As críticas recaem sobre a demora na reação da empresa, já que foram feitas sete chamadas para sua central de atendimento durante o ocorrido, todas sem sucesso. Além disso, dias antes o mesmo motorista já tinha recebido queixas de uma outra usuária.

Após o primeiro caso, a Didi já tinha feito modificações nos seus processos. Além de limitar as caronas dadas de madrugada a apenas pessoas do mesmo sexo, a empresa introduziu o escaneamento facial de todos os motoristas antes de qualquer corrida. A ação foi tomada para prevenir o roubo de identidade, mas a solução parece não ter sido suficiente. No episódio de 24 de agosto, o motorista passou em todos os testes, portava documentos válidos e não tinha antecedentes criminais.

A empresa pediu desculpas publicamente e garantiu que irá oferecer uma recompensa, no mínimo, três vezes maior que a exigida por Lei à família da vítima. Ela ainda suspendeu o serviço por tempo indeterminado e terá que apresentar melhorias mais eficazes.

Na semana passada, a Didi foi convocada por oficiais do governo de diversas cidades, que apontaram medidas a serem tomadas e ameaçaram inclusive revogar licenças locais de operação da empresa. Autoridades de Shenzhen disseram que aproximadamente 5 mil motoristas e 2 mil veículos registrados com a Didi não estavam qualificados e ordenaram que a situação seja resolvida. Desde o começo de 2018, o comitê de transporte e comunicação da cidade puniu 8 plataformas de transporte de passageiros, somando uma multa de aproximadamente U$ 3,9 milhões.

Mas não é somente o governo que tem cobrado por respostas. No final de agosto, o número de downloads do aplicativo da Didi na loja virtual da Apple caiu de décimo primeiro lugar para o sexagésimo primeiro. Nas redes sociais chinesas, celebridades fizeram posts deletando o aplicativo. Com uma legenda dizendo “adeus!”, o post da atriz Wang Xiaochen recebeu mais de 290 mil curtidas na semana passada.

Enquanto isso, no começo da semana passada aplicativos de segurança estiveram na lista dos mais baixados na loja virtual da Apple. O Gong`an 110, por exemplo, permite que os usuários façam chamadas de vídeo e mandem mensagens de texto diretamente para a polícia. Já o Beijing 110 compartilha automaticamente a localização do usuário com a polícia, fornecendo também informações sobre a delegacia mais próxima.

Inovação a serviço do bem

Empresas como a Didi, que comprou a 99Taxis no Brasil no começo do ano, são fundamentadas em tecnologia e ganham cada vez mais espaço no mercado. Em 2017 a empresa bateu o recorde de 7,4 bilhões de corridas e hoje é avaliada em U$56 bilhões. Porém, é crucial que elas também coloquem a inovação a seu favor e em benefício dos usuários, a fim de não ter seus ambiciosos planos de expansão ameaçados. Ou, mais importante ainda, a fim de manter a sobrevivência de seus negócios.

A Yitu Technology já tem tecnologia disponível para identificar se um determinado motorista está usando o cinto de segurança ou usando o telefone enquanto dirige. Eles também já conseguem alertar a polícia imediatamente sobre essas ou outras infrações à Lei. Seu sistema recebeu inclusive o Prêmio de Progresso em Ciência e Tecnologia pelo Ministério da Segurança Pública em 2015 e foi considerado uma ferramenta para a construção de cidades inteligentes. Talvez seja hora de a Didi sair em busca de parceiros mais eficazes ou de inovações em seu mercado.

O imenso volume de dados coletados pelas empresas de tecnologia podem sim ser usados para o bem ou para o mal. No pior cenário, isso pode significar prever o comportamento de ativistas ou minorias, dar mais poder a extremistas, ou minar o valor da diversidade. Por outro lado, se informações como dados biométricos, localização ou sinais vitais significar uma oferta de serviços mais seguros, eficientes e úteis, um enorme mercado consumidor já está disposto a abrir mão de sua privacidade em benefício próprio e do coletivo.