Brasil pede abertura do mercado chinês para derivados da soja em encontro dos BRICS

Michel Temer se juntou ainda aos demais líderes do bloco econômico na África do Sul para combater o unilateralismo e o protecionismo no cenário mundial.

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Joanesburgo recebeu na última semana, entre os dias 25 e 27, o décimo encontro anual dos BRICS. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assinaram uma declaração na qual concordam em fortalecer a cooperação econômica e de segurança entre os países do bloco, apoiam o livre comércio e se comprometem em trabalhar por uma ordem internacional mais justa.

“Nós reconhecemos que o sistema de comércio multilateral está enfrentando desafios sem precedentes. Nós ressaltamos a importância de uma economia mundial aberta”, afirma o documento.

O evento aconteceu em meio à guerra comercial entre Estados Unidos, China e demais países afetados pelas barreiras comerciais impostas por Donald Trump. Os líderes do BRICS aproveitaram a oportunidade para reunir forças. Este ano também foram convidados Argentina, Turquia, Jamaica, Egito e Indonésia, além de diversos países africanos.

“Nós precisamos fazer uso do enorme potencial da cooperação econômica, lutando contra o protecionismo, trabalhando junto das Nações Unidas e do G20”, afirmou o presidente chinês, Xi Jinping, durante o evento. Segundo ele, a “escalada protecionista e unilateral” tem afetado diretamente os mercados emergentes.

Temer conversa com Xi Jinping

Michel Temer se encontrou com o líder chinês na quinta-feira, dia 26. Durante a conversa, o presidente pediu a retirada da sobretaxa às exportações brasileiras de carne de frango e açúcar. Além disso, ainda solicitou a abertura do mercado chinês para produtos derivados da soja.

Segundo o Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, o presidente chinês se comprometeu em fazer os encaminhamentos necessários. “Nossa pauta de exportação com eles precisa ser aumentada e Xi Jinping disse que quer ampliar o mercado”.

“Exportamos muita soja para a China, mas soja em grão. O que nós queremos, e ressaltei isso ao presidente Xi Jinping, é mandar os elementos processados, ou seja, óleo de soja e farelo de soja, o que naturalmente permite a industrialização no nosso país”, afirmou Temer.

Durante a reunião, Michel Temer levou ainda um pedido de aumento nos investimentos privados no Brasil. Xi Jinping garantiu colaboração nas iniciativas relacionadas a ferrovias, portos, aeroportos, linhas de transmissão e distribuidoras de energia.

A instalação de um escritório regional do Novo Banco de Desenvolvimento em São Paulo também foi tema da conversa, tendo um acordo assinado no mesmo dia.

Um banco para os BRICS

Talvez a mais concreta iniciativa em termos de cooperação entre os países do BRICS até hoje, o NDB já aprovou 21 projetos de investimento, totalizando mais de 5 bilhões de dólares em empréstimos. Quatro desses projetos são brasileiros: um relacionado a programas de desenvolvimento de cidades paraenses ao longo da Trans-Amazônica, outro à reconstrução de 233Km da rodovia 006 no Maranhão. O terceiro é voltado à energia renovável e o mais recente aprovado, à modernização de duas refinarias da Petrobrás em Duque de Caxias (RJ) e Betim (MG).

Com o objetivo de financiar projetos de infraestrutura sustentáveis no Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e até em demais economias emergentes, o banco foi fundado em 2014. Sua sede foi inaugurada formalmente em julho de 2015, em Xangai.

O bloco dos países emergentes responde por 22,5% do PIB mundial e concentra 42,5% da população do planeta. Atualmente, Índia e China são as economias mais influentes do bloco. Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, representando grande força política, especialistas afirmam que não interessa à China dominar o grupo, afim de não desperdiçar seu poder de coalizão.

Discurso chinês

Durante o evento, Xi Jinping pediu aos membros do bloco econômico que cooperem ainda mais na próxima década, tanto entre si, como com outros países em desenvolvimento. Para isso, divulgou uma proposta focada em quatro pontos principais: colaboração econômica, garantia da paz e segurança global, intercâmbio de conhecimentos e cooperação com as Nações Unidas e G20.

Além de estimular os participantes a aproveitar as oportunidades trazidas pelas revoluções na ciência, tecnologia e indústria, focando na paz e no desenvolvimento, o presidente chinês falou em conformidade com a tendência de multi-polarização mundial e globalização econômica. Também afirmou não existir vencedor em uma guerra comercial global.

Participação brasileira

Durante a reunião plenária com os demais líderes do BRICS, Michel Temer se colocou à favor da abertura comercial e ao diálogo entre os países. “Hoje a regra geral é essa: só somos competitivos quando somos abertos. Abertos a insumos sofisticados, a tecnologias mais avançadas, a ideias mais arejadas abertos, enfim, a mais investimentos e a mais comércio”.

Se referindo ao tema deste ano, “BRICS na África: Colaboração para um o Crescimento Inclusivo e a Prosperidade Compartilhada na 4a Revolução Industrial”, o presidente afirmou que o maior ativo de um país é a capacidade de seus cidadãos de assimilar conhecimentos e articulá-los de forma pertinente, ágil e criativa. “Com a quarta revolução industrial, é essa capacidade que traz vantagens competitivas em ciência, tecnologia, inovação”, completou.

Durante a cúpula, o Brasil apresentou ainda um memorando para fortalecer parcerias na aviação regional e uma proposta de criação de rede de parques tecnológicos dos BRICS.

Michel Temer não teve reuniões bilaterais com Narendra Modi, primeiro ministro da Índia, nem com Vladimir Putin, da Rússia. Com isso, demonstrou um baixo poder de convocação, típico a líderes ao final de mandato ou com baixos índices de aprovação.

Apesar da modesta participação brasileira no encontro deste ano, o país será o foco das atenções em 2019, quando sediará a décima primeira edição do evento, em outubro.