O que está em jogo na visita secreta de Kim Jong-un a Xi Jinping

A convite de Xi Jinping, o ditador norte-coreano visita Pequim e reforça a preciosidade da relação entre os dois países, apesar das "chuvas e ventos".

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Os líderes da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, e China, Xi Jinping, em encontro histórico em Pequim.
Os líderes da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, e China, Xi Jinping, em encontro histórico em Pequim.

A recente visita inédita que o ditador norte-coreano Kim Jong-un fez ao presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, foi a primeira realizada a um chefe de estado desde que assumiu o poder, em 2011. Mas outras já estão agendadas. No próximo dia 27 de abril Kim se reunirá com o presidente da Coréia do Sul, Moon Jae-in, no primeiro encontro entre os líderes dos dos países desde 2007. Ao que tudo indica, em Maio será a vez de Donald Trump, que tinha recuado do encontro no começo de março.

A visita oficial de Kim, sua esposa e uma comitiva de assessores converte-se assim em um marco. Não se trata só de um novo gesto do líder norte-coreano na sua política internacional, mas também em mais uma jogada de mestre de Xi Jinping, que se adiantou a Trump no tabuleiro geopolítico. A visita, realizada a convite de Xi, ocorreu em segredo entre os dias 25 e 28 de março, tendo sido divulgada na mídia somente após seu término.

O governo chinês informou a Casa Branca sobre a visita. Na quarta-feira, dia 31, Trump respondeu com otimismo em seu perfil no Twitter, dizendo que existe uma boa chance de Kim fazer o que é certo para seu povo e para a humanidade. A China pode ser considerada um território neutro para o encontro entre eles, apostam observadores internacionais.

Tendo em vista a aproximação dos encontros com Moon e Trump, a conversa entre Xi e Kim foi divulgada pela mídia chinesa como sendo naturalmente evidente. Segundo o China Daily, a visita mostra que que a China e a Coréia do Norte estão mantendo uma comunicação próxima, reforçando seu relacionamento de longa data.

A declaração foi uma resposta direta às críticas da imprensa internacional, que enxerga Pequim como sendo posta de lado, tendo em vista os recentes contatos entre Pyongyang, Seul e Washington.

Parceria ameaçada

Apesar de ser responsável por mais de 90% do comércio da Coréia do Norte, a China têm apoiado cada vez mais as sanções impostas pelas Nações Unidas. Com o objetivo de forçar uma interdição no uso de armas nucleares, as sanções impõem reduções principalmente às exportações de carvão e frutos do mar da Coréia do Norte.

China e Coréia do Norte mantém até hoje um tratado de defesa mútua, que têm como objetivo promover uma cooperação amigável em vários aspectos, defendendo a paz e a segurança na região. Desde que tomou o poder, Kim já realizou 85 testes balísticos. Um deles acredita-se que foi cronometrado para acontecer durante um encontro dos Brics na China, em Setembro de 2017. Os testes nucleares podem ser encarados como violações ao tratado, uma vez que ameaçam a segurança geopolítica da região.

E as provocações de Kim não param por aí. Nos últimos anos, além de ter recusado propostas de seu maior parceiro econômico, o ditador demitiu funcionários que serviam como canais diretos com Pequim.

É de grande importância para ambos que se chegue a uma solução que acomode seus interesses econômicos e políticos. Manter potenciais riscos sob controle também é essencial em momentos de negociação. O governo norte-coreano sabe que o apoio chinês é fundamental nas negociações com a Coréia do Sul e Estados Unidos. Explicar seu posicionamento e coordená-lo com o governo chinês faz parte deste processo.

Durante seu discurso em Pequim, Kim Jong-un chamou os desentendimentos entre os dois países de “chuvas e ventos”. Mas, reforçou que a relação entre eles é preciosa e que se mantém intocada.

Rodada de negociações

A China, por sua vez, tem repetido que apoia todos os esforços para minimizar as tensões na península e colocar as partes envolvidas em negociação. De acordo com a agência Xinhua, Xi Jinping elogiou Kim Jong-un por seus recentes movimentos diplomáticos. “Este ano há mudanças promissoras na situação da península Coreana. Nós expressamos nosso apreço pelos esforços que a Coréia do Norte tem feito neste sentido”, disse Xi. “Se a Coréia do Sul e os Estados Unidos responderem com boa vontade aos nossos esforços, criando uma atmosfera de paz e estabilidade, adotando medidas gradativas e sincronizadas para atingir a paz, a questão da desnuclearização da península pode chegar a uma solução”, afirmou Kim.

Especialistas veem a visita ainda como uma tentativa do ditador amenizar sua péssima imagem internacional. Ao passar a impressão de que quer uma solução pacífica e genuína para o conflito na região, ele pode atenuar a negociação com os EUA. Outros acreditam ainda na tentativa de atenuar o posicionamento chinês sobre as sanções internacionais. Isso colocaria a Coréia do Norte em uma posição mais forte na mesa de negociação com os Estados Unidos e a Coréia do Sul.

No último domingo, dia 1 de abril, Coréia do Sul e Estados Unidos iniciaram seu simulado militar anual. Especuladores dizem que neste ano, o exercício, que historicamente têm sido encarado como provocação pela Coréia do Norte, será encurtado. Se este já for um sinal de boa-vontade por parte dos americanos e sul-coreanos, talvez a paz na região esteja mais próxima de se concretizar.