Dali, o início da viagem à Yunnan

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Imagem: Pixabay

Autora do Blog China na Minha Vida compartilha suas experiências em Dali, um dos pontos mais populares entre os viajantes do sul da China.

Por Christine Marote**

E vamos começar a descrever ponto a ponto a nossa viagem por Yunnan. Como disse no artigo anterior, que dá uma ‘geral’ no nosso roteiro de uma semana em Yunnan, chegamos na província por Dali, vindo de Shanghai. Um voo direto de aproximadamente 4 horas.

Fomos direto para a Cidade Velha (Dali Old Town), também chamada de Gucheng, pois lá ficava nosso hotel. Nos hospedamos no ‘Oasis – The Secret Luxury Hotel’, super bem localizado na rua principal do vilarejo, onde pudemos caminhar bastante entre lojas, bares e restaurantes locais e internacionais.

A cidade

Dali fica a 4 horas de carro de Kunming (capital de Yunnan) e é considerada um lugar perfeito para relaxar. Hoje, está dividida em ‘Dali New City’ (下 关, Xiàguān) e ‘Dali Old Town’ (古城, Gǔchéng). A cidade velha tem uma população de apenas 40 mil habitantes, mas Dali como um todo possui cerca de 3 milhões.

É bom ficar claro que Xiaguan (a cidade nova) é o ponto de chegada em “Dali”, mas é uma cidade chinesa industrial padrão. Para turismo o ideal é ir direto para Gucheng, famosa por sua arquitetura tradicional e as dezenas de vilarejos que circundam a cidade. Sem falar no lago Erhai (imenso, por sinal) e na colorida mistura de várias etnias minoritárias da China (Bai é a principal, mas também podemos encontrar as pessoas de Yi e Hui).

Desde o final dos anos 90 o número de turistas estrangeiros foi superado pelos próprios chineses. Mesmo assim nos deparamos com muitos franceses em todos os locais. Mas, realmente os chineses eram o grosso do turismo.

A arquitetura da região também me deixou encantada, as casas na sua maioria são brancas com várias pinturas em azul. Elas seguem o estilo dos telhados e portas chinesas, mas têm seu charme especial.

Um pouco da história da Dali

Dali tem uma longa e gloriosa história. Há 4.000 anos, os antepassados ​​do povo Bai se estabeleceram nesta área. No século 2 dC, foi trazida para o território do governo central da Dinastia Han (206 aC-220AD). Teve dois estados étnicos, o estado de Nanzhao (738-937) na dinastia Tang (618-907), e o estado de Dali (937-1.253) na Dinastia Song (960-1.279).

O Reino de Nanzhao cobriu uma grande área de Yunnan e do norte da Birmânia e partes de Sichuan e Guizhou. O reino sobreviveu quase 200 anos e teve 13 reis antes de colapsar. Após várias décadas de caos, o Reino de Dali emergiu em 937, estabelecido por Duan Siping, foi controlado pelo clã Duan e sobreviveu até ser conquistado pelos mongóis no século 12. O Reino manteve uma estreita aliança com a Dinastia Tang e foi um dos principais pontos de trânsito para a introdução do budismo em todo o resto da China. Em 1.000, Dali era uma das 13 maiores cidades do mundo.

Ao longo de todos esses anos, permaneceu uma área intermediária ligando as comunicações econômicas e culturais entre a China antiga e outros países através da Índia. Os restos da Cidade TaiHe e da Dali Ancient Town testemunham milhares de anos de mudanças históricas, juntamente com o povoado de Xizhou e de Zhoucheng. Essas vilas antigas ao redor mostram o melhor dos costumes históricos da vida cotidiana dentro da minoria Bai.

Esses eventos históricos são imortalizados na literatura de artes marciais do autor de Hong Kong, Jin Yong (lido por todos os alunos da escola chinesa), dando a Dali uma fama em todo o país. Tanto o Reino de Nanzhao quanto o Reino de Dalí tiveram uma aliança militar com a Dinastia Tang contra o Império Turfan (Tibetano) que fez incursões regulares em seus respectivos territórios.

Os mongóis destruíram a antiga capital e o palácio do Reino de Dali, localizado ao sul dos “Três Pagodas” (que visitamos). Quase todos os registros dos reinos de Nanzhao e Dali foram destruídos, deixando um vácuo sobre a história desses períodos. Além disso, os mongóis deslocaram brutalmente muitos dos habitantes da cidade, com o resultado de que a minoria Bai foi forçada a migrar para a Província de Hunan.

A antiga cidade foi reconstruída no início dos anos 1.400 pela Dinastia Ming e é o que vemos hoje em Gucheng.

Diversidade

As minorias étnicas habitaram esta área por gerações, sendo a minoria Bai a maior parte de sua população (65%). Os costumes trazem charme para a vida diária. Cada entrada da primavera há celebrações e festivais que trazem vida à cidade. Nossa visita foi no outono, não havia festas. Mas o colorido das ruas, das pessoas, dos trajes típicos ainda usados são uma visão encantadora.

O que visitamos em Dali

Ficamos duas noites em Dali. E, só para lembrar, estávamos com o guia Kewen Wu, com um carro a disposição, o que facilitou nosso deslocamento pela cidade e vilarejos.

O Lago Erhai

Basicamente, contornamos o Lago Erhai quando chegamos, já que o aeroporto ficava do lado oposto do lago. Seu nome significa em forma de mar como uma orelha’, em mandarim, que quer dizer que o lago tem forma de orelha e é tão grande quanto o mar. Interpretação é tudo, né? Este é um dos sete maiores lagos de água doce da China, cobrindo uma área de 250 quilômetros quadrados. Dizem que nos dias de sol, as águas cristalinas do lago e o monte Cangshan, coberto de neve, são uma paisagem maravilhosa e por isso são  descritos como ‘Prata Cangshan e Jade Erhai’. Infelizmente não vimos essa paisagem… Acho que vou ter que voltar.

A cidade velha

Depois que chegamos ao hotel, jantamos num restaurante local e fomos caminhar pela rua principal de Gucheng. A cidade velha, situada a 13 quilômetros de distância de Xiaguan, é datada de 1.382, durante a dinastia Ming (1368-1644).

 

De acordo com a literatura, esta Cidade Antiga era uma porta de entrada para a Estrada da Seda no sudoeste da China, e também serviu como sede do governo e um importante quartel militar para a Província de Yunnan nos tempos antigos.

Como todas as cidades estratégicas do império chinês, ela possuía uma muralha de 6 quilômetros, com altura de 7,5 metros e  6 metros de largura. Havia quatro portões da cidade de frente para o oeste, leste, norte e sul. Como sofreu muitas fases de prosperidade e declínio, apenas a base da muralha permanece até hoje. A Torre de Wuhua é o marco central da cidade velha.

Arquitetura

As casas tradicionais da minoria étnica Bai dão a sensação distintiva da cidade, que foge ao padrão de qualquer outra cidade chinesa. Uma casa típica é caracterizada por “3 salas e uma parede” e “4 juntas e 5 pátios”. Ou seja, cada casa tem uma sala principal e outras duas que formam um U. Quando o sol brilha no rastreio da parede pela tarde, a luz solar é refletida de volta para o pátio, iluminando assim toda a área.

A decoração é outra característica das residências populares, dando atenção às torres dos portões, aos beirais e aos cantos. As janelas, as portas e a blindagem da parede são adornadas com tiras em madeira de Jianchuan, padrões coloridos, mármores e desenhos que refletem o dia a dia dessa região. A delicadeza, o frescor e a elegância de sua construção podem ser chamados de primeira classe entre as residências populares no sudoeste da China.

No dia seguinte, visitamos as Três pagodas, os vilarejos de Guizhou e Zhoucheng, o local onde fazem os maravilhosos tecidos tingidos em azul e branco (tie-dye), típicos dessa região. Hoje em dia encontramos alguns vermelhos, laranja e verdes, mas o forte desse trabalho ainda é o azul.

As Três Pagodas

As Três Pagodas ficam a cerca de 1 km a noroeste da antiga cidade de Dali, ocupando uma localização cênica ao pé do Monte Cangshan e de frente ao Lago Erhai, tem uma história de mais de 1.800 anos. É um símbolo e um registro do desenvolvimento do budismo na região. Como o próprio nome indica, são três pagodas antigas independentes, que formam um triângulo simétrico. Isto é único na China.

A pagoda do meio, chamada de Qianxun, tem 69 metros de altura e representa um período em que Dali era um reino budista, estando fechada para visitação. Muitas esculturas de Buda em ouro, prata, madeira ou cristal, escritos budistas e mais de 600 ingredientes medicinais foram encontrados nesta pagoda.

 

As Três Pagodas sobreviveram a várias eras de terremotos graves. O governo local ainda faz um grande esforço para garantir a preservação deste tesouro arquitetônico.

O Templo Congshen, atrás das Três Pagodas, foi recentemente reconstruído e reaberto, depois de ser deteriorar no século 20 devido a terremotos e incêndios. É um complexo maciço que proporciona uma bela vista da cidade antiga de Dali e do Lago Erhai. O entorno das Três  Pagodas tem um grande complexo turístico, com templos, parques e muitas lojas. Como nosso tempo era curto, ficamos com a beleza das pagodas e seguimos nossa viagem!

Xizhou

Aproximadamente a 20km de Dali, fica Xizhou, um vilarejo com quase 200 casas listadas na herança nacional. Datadas da dinastia Qing, são os melhores exemplos da arquitetura tradicional deste período. Os artesãos de Xizhou eram famosos em todo o sudeste asiático, sendo chamados para construir casas no Vietnã e em Myanmar.

A propriedade familiar do clã Yan é preservada como um museu e aberta ao público. É um exemplo de habitação das pessoas ricas e diferindo bastante das casas comuns na vila. Mesmo assim, é o mais representativo estilo Bai. O complexo abrange uma área de cerca de 3.066 metros quadrados, construído em torno da década de 1.920. Como um todo, é dividido em quatro partes e cada parte está habilmente ligada entre si.

Ao entrar, vemos a casa principal com a parede de fundo e duas asas. De acordo com a tradição da arquitetura de estilo Bai, a parede deve estar voltada para o leste. Assim, usa-se o sol do início da manhã para refletir a luz nos quartos internos. Além disso, essa parede, adornada com elaborada caligrafia e pinturas, é considerada como um talismã. O povo Bai acredita que traz boas energias e bênçãos.

Dentro desse ‘museu’, há uma casa em estilo ocidental, construída no fundo do terreno, cercada por muros. Era a paixão do proprietário pela arquitetura francesa.

Coisas interessantes

Compras não são meu forte em viagens, mas vimos coisas interessantes. Os tecidos tingidos são meus prediletos. Há uma série de produtos locais para quem gosta de levar para casa um pouco do lugar que visitou.

Peças de mármore, madeira e chifre de boi são comuns nessa região. Artefatos de couro, como bolsas e carteiras, também são bonitos. Os tambores coloridos são um artesanato presente em todos os lugares.

Vimos muitas lojas de bijouteria e jóias em prata, de muito bom gosto e com design bem arrojado. Realmente peças lindas.

Na realidade achamos Dali um pouco hippie, as pessoas mais descoladas, muitos artistas (músicos, designers, artesãos). As lojas também nos surpreenderam.

Na parte de alimentação você encontra o chá comprimido ‘Tua Cha’. Há também os bolos de flores, na sua maioria recheados com rosas – eu não gosto, mas as lojas estavam cheias. O vinho branco local é bastante famoso, e diferente do Baijiu, e ainda as frutas cristalizadas.

Comidas e afins

Não sou uma pessoa que gosta de pimenta, então pedimos sempre que os pratos fossem moderados nesse quesito. A culinária local é a base de carne de porco, frango, legumes e verduras frescas, muita fruta e sucos. Não tivemos problemas com alimentação nessa região. Só usamos alguns snacks durante as viagens de carro, que foram longas.

Das comidas de rua, provamos o baba, uma espécie de pão recheado com algo doce. Acredito que era feijão, mas o sabor final era bem gostoso. Também comemos o mesmo ‘pão’ salgado, e não decepcionou.

 

Agora me apaixonei mesmo foi pelo suco de romã que bebemos durante toda a viagem, bem famoso nessa região. Feito na hora, sem açúcar ou água. Hummm, só de lembrar…

Confira nos links abaixo todas as aventuras desta mágica viagem!

Descobrindo Yunnan: a província mais colorida da China
A tradição dos tecidos de Zhoucheng
Visitando Shaxi, uma vila tipicamente chinesa
Shangri Lá: o paraíso que os chineses encontraram

Zài Jián!

Publicado originalmente em: https://chinanaminhavida.com/2017/11/13/dali-o-inicio-da-viagem-a-yunnan/ e https://chinanaminhavida.com/2017/11/16/dali-yunnan-o-que-visitar-nessa-cidade/

**Christine Marote vive na China desde 2009 e é autora do Blog China na Minha Vida. Formada em educação, tem MBA em negócios e cultura chinesa pela Jiaotong University. Atua como palestrante e presta assessoria para pessoas e empresas que vão à China para turismo ou negócios.