Lao She e a China dos riquixás: literatura e cultura chinesa no século XX

Evento no centro de São Paulo promove uma noite de literatura moderna chinesa e na história recente do país, pensada a partir da vida e da obra de Lao She.

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Lao She e a China dos riquixás
Lao She e a China dos riquixás

O lançamento do romance O GAROTO DO RIQUIXÁ (1937) pela Estação Liberdade marcou a primeira vez que Lao She, expoente da literatura moderna chinesa, foi publicado no Brasil.

A livraria Tapera Taperá e a editora Estação Liberdade organizam este evento para promover uma noite focada na literatura moderna chinesa e na história recente do país, pensada a partir da vida e da obra de Lao She.

O professor Shu Changsheng (DLO-USP) guiará a conversa, que contará também com a participação da professora Márcia Schmaltz,  que é também a tradutora de O GAROTO DO RIQUIXÁ). No encontro também serão exibidos trechos da adaptação cinematográfica de Zing Lifeng para a obra.

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Sobre o autor:
Lao She (pseudônimo de SHU QINGCHUN) nasceu em Beijing, em 3 de fevereiro de 1899. Nascido em 1899 em uma família pobre da minoria manchu e influenciado por autores como Charles Dickens e D. H. Lawrence, Lao She se dedicou a narrar com realismo as dificuldades da China e dos chineses. O GAROTO DO RIQUIXÁ se tornou sua obra mais emblemática. Ganhou o Prêmio Nóbel de Literatura em 1968, dois anos depois da sua morte.

Lao She

Sobre o livro:
(Estação Liberdade, 2017, tradução de Márcia Schmaltz), originalmente publicado em 1937.

Xiangzi, o protagonista do livro, luta para tentar sobreviver na Pequim dos anos 1930 como puxador de riquixá, a carroça muito comum em países asiáticos. O conflito entre a ingenuidade do garoto do campo e o individualismo feroz da metrópole é metáfora para a China no início do século XX: uma sociedade rachada por disputas de poder, que começava um processo de modernização que, ao mesmo tempo em que trazia importantes avanços culturais, aprofundava o abismo da desigualdade social no país.

Entrada Gratuita

Horário: Quarta-feira, dia 21 de março, a partir das 19h.
Local: Tapera Taperá

Av. São Luiz, 187, 2º andar, loja 29 – Galeria Metropole, 01046-001 São Paulo

LEIA UM TRECHO DO LIVRO:

Como estava feliz, sentia-se mais corajoso. Desde que comprara o riquixá, Xiangzi corria ainda mais depressa. Claro que com a atenção redobrada, devido ao fato de o veículo ser dele, mas caso não corresse, se sentiria em débito consigo mesmo e com o riquixá.

Depois de chegar à cidade, ele cresceu mais dois dedos. Ele mesmo percebeu isso e achava que cresceria ainda mais. De fato, seu corpo havia ficado mais robusto, e acima dos lábios despontava um princípio de bigode. E, sim, ele queria ficar ainda mais alto. A cada vez que tinha que se abaixar para passar por um portão de rua ou uma porta, apesar de nada dizer, ria por dentro, pois mesmo já sendo alto sentia que seguiria crescendo. Agradava-lhe sentir-se adulto e ainda criança.

Uma pessoa vigorosa como ele, em cima de um riquixá tão bonito e que era só dele –com os amortecedores tão macios que faziam os varais vibrarem, o chassi brilhante, impecável, o assento muito branco e uma sonora buzina–, queria correr como forma de homenagear a si próprio e ao riquixá. E olha que isso não era falsa modéstia, mas sim, para ele, um dever: tinha que correr, quase que voar, para desenvolver ao máximo sua força e exaltar a beleza do riquixá. Aquele veículo era adorável; meio ano depois, andando com o riquixá na rua, ainda nutria por ele um grande carinho. O veículo correspondia ao menor sinal do balanço da cintura, de uma flexão da perna ou de um endireitar da coluna de Xiangzi. Parecia que tentava ajudar seu dono de maneira incondicional, não existia nenhuma barreira entre o riquixá e Xiangzi. Em lugares planos e mais inóspitos, Xiangzi corria apenas com uma mão em um dos varais, e o ressoar manso da borracha dos pneus traseiros fazia-o avançar veloz e estável. Ao chegar ao destino, a roupa de Xiangzi ficava encharcada de suor, como se tivesse sido tirada do balde. Sentia-se exausto, mas feliz e orgulhoso. Um cansaço como se tivesse galopado um cavalo de raça.

Dizem que a valentia leva ao descuido, mas Xiangzi era prudente quando desembestava a correr. Se não fosse depressa ficaria mal com o passageiro, mas, se ao correr batesse o riquixá, se sentiria mal consigo mesmo. O veículo era sua vida, sabia que tinha de ser cuidadoso. Como era valente e cauteloso, a autoconfiança crescia nele a cada dia, e acreditava que ele e o veículo eram de ferro.