Superará a China o nível de inovação no Ocidente?

Cada vez mais as empresas da China estão se tornando conscientes de que precisam de inovação para seguir na vanguarda da economia global, diz o Nobel de Economia

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Inovação Chinesa. Foto: amoo.co.uk

EDMUND S. PHELPS

NOVA YORK – Desde o início do século XIX até o início do século XX, os países ocidentais atribuíram seu crescimento econômico às descobertas de “cientistas e navegadores”. Um país precisa apenas de “compromisso” para desenvolver aplicações comerciais “óbvias” e construir as instalações para atender a demanda de novos produtos.

Até recentemente, os chineses acreditavam a mesma coisa. Mas agora, empresários e empreendedores chineses estão mostrando cada vez mais que não basta o esforço empresarial para se adaptar às novas oportunidades, mas também o desejo e a capacidade de inovar por conta própria, em vez de simplesmente copiar o que já existe.

Na verdade, cada vez mais as empresas chinesas estão se tornando conscientes de que devem inovar para seguir – e continuar – na vanguarda da economia global. Várias empresas – especialmente Alibaba, Baidu e Tencent – fizeram grandes avanços, oferecendo a infra-estrutura da era digital que facilita atividades inovadoras. E, as industriais tem se deslocado recentemente para o uso de robôs e inteligência artificial.

Por sua vez, o governo chinês apoia claramente as empresas chinesas que desenvolvem a capacidade de produzir inovações locais. Sem dúvida, reconhece que tais inovações são ainda mais valiosas quando o nível de inovação continua fraco em Ocidente, onde o crescimento da Produtividade Total dos Fatores (PTF) mantêm uma longa desaceleração.

Nos últimos anos, o governo chinês introduziu iniciativas voltadas para aumentar o espírito de empreendedorismo e inovação. Reduziu drasticamente o processo para formar uma nova empresa. Construiu uma grande quantidade de escolas, onde as crianças chinesas aprendem mais sobre o mundo que enfrentarão. E, recentemente, facilitou a entrada de especialistas estrangeiros para trabalhar em novos projetos no setor empresarial.

As autoridades também reconheceram a importância de permitir uma maior concorrência na economia. Os indivíduos devem ter a liberdade de iniciar novos negócios, e as empresas existentes devem receber as liberdades pertinentes para entrar em novas indústrias. A competição resolve muitos problemas – este é um ponto que desaparece cada vez mais no Ocidente.

Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, realizada em janeiro passado, autoridades chinesas explicaram as reformas básicas que seu governo introduziu há dois anos para aumentar a concorrência. Sob a nova política, o excesso de capacidade agora indica que deve se permitir que a oferta se contraia e que as empresas redundantes sejam chamadas a sair do mercado. Claro, o excesso de demanda indica que a oferta deve aumentar, o que leva à entrada de novas empresas.

A idéia-chave é que, quando as empresas existentes estão protegidas contra novos operadores no mercado, trazendo com eles novas idéias, o resultado será menos inovação e menos “adaptação” a um mundo em mudança, expressando esse conceito nas palavras de Friedrich Hayek.

Outra justificativa pode ser apresentada. Em qualquer economia moderna, praticamente todas as indústrias operam frente a um futuro que é amplamente desconhecido. Quanto mais empresas em uma indústria estiverem pensando em um problema específico, mais provável é que eles encontrem uma solução. Uma empresa que foi mantida fora de uma indústria pode saber algo que todas as empresas da indústria ignoram. Ou, uma experiência única pode ter proporcionado a uma pessoa um “conhecimento pessoal” que é impossível transmitir a outros que não tiveram a mesma experiência. Seja qual for o caso, a sociedade beneficia – através de preços mais baixos, mais empregos, melhores produtos e serviços, etc. – quando os de fora que têm algo a acrescentar estão autorizados a fazê-lo.

Tudo isso era conhecido pelos grandes teóricos das décadas de vinte e trinta: Hayek, Frank Knight e John Maynard Keynes. E, agora, é conhecido pelos chineses, que entendem que um país se beneficia quando as empresas – cada uma com seu próprio pensamento e conhecimento – têm liberdade para concorrer.

O Ocidente parece ter esquecido isso. Desde a década de 1930, a maioria dos governos ocidentais tem considerado que seu dever é proteger as empresas estabelecidas da concorrência, mesmo quando essa concorrência vem de novas empresas que oferecem novas adaptações ou inovações. Quase com certeza, pode-se afirmar que essas proteções, que são apresentadas de inumeráveis formas, desencorajaram muitos empresários a apresentarem idéias novas e melhores.

A história está cheia de evidências sobre o valor da concorrência. Na Grã-Bretanha da pós-guerra, durante os anos setenta, as indústrias eram controladas por clubes exclusivos dentro da Confederação da Indústria Britânica, uma instituição que proibia a entrada de novos participantes. Quando Margaret Thatcher tornou-se primeira ministro em 1979, a produtividade total dos fatores tinha estagnado. Mas, Thatcher pôs fim às práticas anticoncorrenciais da Confederação, e a PTF da Grã-Bretanha cresceu novamente em meados da década de 1980.

Agora, estamos vendo algo semelhante na China. Até 2016, a taxa de crescimento da PTD  da China desacelerou por vários anos. Mas desde as reformas desse ano, a PTD vem aumentando.

O Ocidente deve abordar sua grande desaceleração da produtividade total dos fatores, que continua desde o final da década de 1960. Pôr fim à proteção oferecida aos que estão estabelecidos no mercado de novos participantes que têm idéias para novas adaptações e inovações, é um bom lugar para começar.

Edmund S. Phelps, foi prêmio Nobel de Economia em 2006, Director do Center on Capitalism and Society da Universidade de Columbia e author de Mass Flourishing.

Artigo escrito originalmente para o Project Syndicate