O que leem os chineses? Conheça alguns clássicos da literatura chinesa

Conheça algumas das obras literárias, personagens e autores que até hoje permanecem no imaginário chinês e que constituem parte emblemática da cultura do país

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Representação de clássico de Cao Xuequin, O Sonho da Câmara Vermelha
Representação de clássico de Cao Xuequin, O Sonho da Câmara Vermelha

Por Rodrigo C. Lima

 

Uma das 230 ilustrações feitas pelo artista Sun Wen (1818 – 1904) para acompanhar a edição real do “Sonho da Câmara Vermelha” pertencente à dinastia Qing                      .:. Ilustração: 孙温(séc 19)
Uma das 230 ilustrações feitas pelo artista Sun Wen (1818 – 1904) para acompanhar a edição real do “Sonho da Câmara Vermelha” pertencente à dinastia Qing                      .:. Ilustração: 孙温(séc 19)

 

“Ser ou não ser, eis a questão”, “verde que te quero verde”, “olhos de ressaca”… Tais expressões são imortais no imaginário da literatura ocidental, imediatamente somos remetidos à figuras como Shakespeare, García Lorca e Machado de Assis, respectivamente. Não raro, aludimos à cenas e situações dos livros que lemos, alguns dos quais obras clássicas, leituras quase obrigatórias e que continuam a nos inspirar na vida real. É dessa forma que nos pegamos com certas ideias na cabeça que não são bem nossas, mas sim pequenas citações de livros ou autores que gostamos.

Na China, a situação é exatamente semelhante. Problema é que na medida em que os autores ocidentais são traduzidos por lá, poucas vezes temos a oportunidade de ler os clássicos chineses por aqui. A dificuldade que a tradução nos impõe é latente. É o que garante Xiong Yin, professora do Instituto Confúcio, e mestre no ensino de chinês para estrangeiros pela Universidade de Hubei. “O próprio tradutor precisa assumir uma condição artística, o problema é que o número de sinologistas no mundo inteiro é bem reduzido”. Outro desafio, segundo ela, é explicar o fundo cultural e as peculiaridades já implicadas na maioria das obras chinesas. Algo que, aparentemente, requer bastante esforço por parte do leitor.

Por outro lado, importante reconhecer que também falta um esforço do mercado especializado a fim de trazer essas obras para cá. Curiosamente, a maioria dos autores conhecidos por aqui são escritores censurados na própria China, dentre os quais podemos destacar Jung Chang (autora de Cisnes Selvagens) e Yan Lianke (que escreveu O Sonho da Aldeia Ding). Outros tantos, no entanto, mais tradicionais ou então mais antigos, permanecem sem uma tradução adequada.

“A literatura chinesa é mais sútil e atenta-se mais à forma, tenta incorporar uma imagem”, explica Xiong Yin. “Assim, prestamos mais atenção à expressão da retórica e às concepções artísticas”.

Enquanto grande parte dessa literatura não chega por aqui, elaboramos uma pequena e resumida lista com algumas obras emblemáticas, clássicas, de muito talento e que permanecem no imaginário chinês até hoje. Pois bem, vamos a elas:

O sonho da câmara vermelha de Cao Xueqin – Certamente o maior clássico da literatura chinesa de todos os tempos. O livro é tão importante que departamentos literários inteiros ainda se dedicam exclusivamente ao seu estudo. A história, publicada em 1791, mais de dez anos após a morte do autor, trata-se da “queda” de uma família de origens aristocráticas, que o autor esmiúça com grandes doses de psicologismo. Nela, o personagem principal se debate entre um casamento de cartas marcadas (atitude que a sociedade espera dele) e a busca inefável pelo seu grande amor. Curiosidade: esses “dois amores” são duas de suas primas. São mais de 40 personagens principais em uma constelação de mais de 400 nomes que se debatem entre intrigas e casos de amor mal resolvidos no decorrer de uma narrativa três vezes maior do que Guerra e Paz. Importante ressaltar também que paira ao redor da obra um grande ar de mistério. Acredita-se que o autor tenha começado a escrevê-la para pagar débitos e ninguém sabe ao certo o que se deu com o manuscrito original. Mas uma coisa é certa: a motivação da história toda é muito semelhante à vida do próprio autor, um gênio que morreu em um estado lamentável – vítima de finanças arruinadas e uma severa dependência alcoólica.

Três reinos de Luo Guanzhong – Escrita em meados do século 14, esta obra é o típico romance de guerra. Narra a respeito do período de conflito civil e reunificação da China conhecido como a divisão dos “Três Reinos” (184 d.C. – 280 d.C.). O trabalho de Luo Guanzhong é muito conhecido por ser uma das primeiras e mais clássicas compilações das tradições orais que andavam muito em voga na China no decorrer daquela época. Complôs intricados, traições políticas, guerras a perder de vista, pautam o ritmo desta narrativa que inclusive já se transformou em novela e filmes. Foi este o trabalho que terminou por garantir uma certa áurea de protagonismo e antagonismo a diversos personagens reais da história chinesa: o herói Liu Bei, o vilão Cao Cao, o calculista Sima Yi, além de muitos outros.

À margem da água de Shi Nai’an – O motivo por detrás dessa história é similar ao que encontramos em Robin Wood ou Os Três Mosqueteiros, por exemplo, mas o desfecho não será em nada parecido com um final feliz. À margem da água é o retrato de uma China em meados da dinastia Song, na qual grupos de bandoleiros e rebeldes assassinos assolavam o país. Aparece então a figura de Song Jiang, que depois de idas e vindas torna-se o chefe de um perigoso bando. É o “rebelde do bem” que, em certa medida, luta pelos seus companheiros e pela unificação do país. Após uma grande batalha, ele convence o seu exército a aliar-se ao imperador. A partir daí, persegue invasores e inimigos rebeldes que ameaçam a estabilidade do reino. Todavia, quando tudo parece estar definido, nem Song Jiang consegue escapar das garras de políticos traiçoeiros e das manipulações que fazem dele mais uma vítima da corte. A obra é importante justamente porque foge do “final feliz”, detalhando em pormenores as convulsões sociais de uma China fragmentada e dividida em exércitos inimigos.

Jornada para o Oeste (traduzida em Portugal como Saga para o Oriente) de Wu Cheng’en – Se O Sonho da Câmara Vermelha é a obra literária mais importante da China, Jornada para o Oeste é certamente a mais famosa em todo o país. Suas influências são múltiplas e impactam até hoje o imaginário dos asiáticos – o desenho Dragon Ball é um grande exemplo desse fato. Resumidamente, a história conta a respeito do monge Xuanzang e a sua jornada para a Índia na tentativa de obter textos sagrados. Sua peregrinação é permeada de percalços e confusões, mas também de aventuras na companhia de estranhos amigos que variam desde um macaco guerreiro, um porco glutão, e até um “monstrengo” – figuras estas que, até hoje, permanecem como as mais conhecidas da literatura local (são famosas especialmente entre as crianças). A obra também é importante, pois retrata a introdução do budismo indiano na China. Em certa medida, a narrativa é um amálgama de tradições orais, religiosas e históricas que se mesclaram no país desde a antiguidade. Trata-se de uma leitura divertida, permeada por mitos e lendas.

Estranhas histórias de um estúdio chinês de Pu Songling – O autor tcheco Franz Kafka leu essa obra e pareceu ter gostado muito dela. De fato, muitas das temáticas narradas por Pu Songling parecem anteceder Kafka: acontecimentos extraordinários, desfechos inesperados, o choque do homem comum diante da incapacidade de compreender a vida, a interferência do imponderável na vida cotidiana e assim por diante. Pu escreveu o livro como uma recolecção de pequenos contos e outras narrativas curtas, de forma que pudesse representar o seu cotidiano como uma realidade permeada por figuras sobrenaturais. Fantasmas, demônios, animais falantes e tipos estranhos aparecem na obra, transformando assim o cotidiano de indivíduos comuns. Tudo isso é também uma crítica à administração corrupta, à hipocrisia social e ao intelecto curto dos indivíduos de sua época. Em suma, é uma crítica social com elementos sobrenaturais. Parece ou não parece Kafka?

Sorgo vermelho de Mo Yan (pseudônimo de Guan Moye) – Até aqui falamos apenas de obras clássicas do imaginário chinês. Mas e o contemporâneo, o que tem para nós? Não seria nenhum pecado dizer que, no momento atual, o escritor mais famoso da China seja Mo Yan, cujo pseudônimo é também uma crítica: significa “não falar” ou “nada dizer”. Ele é o último chinês agraciado com um prêmio Nobel de literatura. Em Sorgo Vermelho, mais tarde adaptado ao cinema por Zhang Yimou (famoso cineasta do país), nós nos vemos diante de personagens imersos no mais puro caos que tomou conta da China nos últimos anos – indo desde a invasão japonesa até a Revolução Cultural imposta por Mao. A narração não cronológica em primeira pessoa marca também a chegada do realismo fantástico ao país.

Óbvio que inúmeras são as outras obras literárias de talento que perpassam a história da China, impossível enumerar todas elas. Mas o leitor que adotar nossa lista pode ter a certeza de que não irá se enganar ao enveredar por algumas singelas narrativas tão pouco conhecidas por nós.