A “Praça dos Namorados”, a nova história do amor na China

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O ator Ian Mckellen “se anuncia” aos pretendentes na famosa Praça do Povo de Xangai (人民广场 ) .:. Foto: Weibo – British Council China
O ator Ian Mckellen “se anuncia” aos pretendentes na famosa Praça do Povo de Xangai (人民广场 ) .:. Foto: Weibo – British Council China

Na medida em que os chineses experimentam uma transformação econômica inédita na história humana, a transformação cultural vem a galope – a maneira de lidar com o amor talvez seja o maior exemplo disso nessa nova China

Por Rodrigo C. Lima

“Se um beijo fosse apenas um beijo, se isso fosse a verdade em meu país…”, foi com esse ar de lamentação que a escritora Xinran, famosa pelo seu livro As Boas Mulheres da China, assinou um artigo anos atrás no The Guardian, quiçá o jornal mais importante da Grã-Bretanha. No artigo, a escritora comparava a demonstração dos afetos no Ocidente e no Oriente. Relatava em pormenores como ainda se sentia pouco a vontade em demonstrar publicamente seus sentimentos.

Mas isso parece estar mudando – e a passos largos.

Não é nenhum exagero dizer que o amor nunca foi tão importante na China como atualmente. Índices demográficos atuais apontam para uma defasagem na proporção de homens e mulheres no país. Segundo dados do próprio governo, há 33 milhões de homens a mais do que mulheres. Portanto, encontrar um parceiro(a) nunca foi tão difícil. Não é sem razão que o número de cursos de namoro aumenta dia-a-dia. Na internet, alguns deles chegam a cobrar 45 dólares por uma hora de ensino das técnicas de sedução, outros a incrível cifra de três mil dólares por um curso semestral. Dinheiro, no entanto, não parece ser um problema no panorama atual. A quantidade de interessados nos cursos, homens na maioria, aumenta ano após ano.

Por outro lado, há meios mais tradicionais de se colocar “disponível” no “mercado afetivo” do amor. A Praça do Povo (人民广场 ), em Xangai, talvez seja o melhor exemplo disso. Todos os dias, centenas de pessoas se reúnem no local com anúncios de disponibilidade nos quais inserem altura, endereço, número de telefone, emprego, formação escolar e outros dados gerais. A presença de mães, pais e até mesmo avós no local é surpreendente. A própria jornalista brasileira Sônia Bridi chegou a dedicar no seu livro Laowai (termo em chinês que equivale à palavra gringo), publicado em 2008, um capítulo muito pesaroso quanto a isso. Dizia ela que era uma cena triste, um episódio lúgubre, no qual as pessoas faziam um último esforço para que não terminassem o resto de suas vidas de maneira solitária.  

Mas o que antes parecia um tabu começa hoje a ganhar ares de naturalidade e até mesmo contornos de atração turística. Ano após ano, milhares de turistas se revezam na praça a fim de testemunharem o evento, que ganhou inclusive um especial em vídeo da rede estatal CCTV intitulado como Chinese Dating Corneralgo como o “Cantinho do Amor” em português. A filmagem chamou a atenção por lá e também por aqui.

Qian Ding, uma das jornalistas responsáveis pela filmagem, disse que a presença de estrangeiros é justamente o que tem facilitado a abordagem do tema. “De início foi difícil filmar por lá”, analisa. “Mas quando introduzimos um estrangeiro, as pessoas vieram falar com ele”. Mesmo que a filmagem tenha sido polêmica, ela diz que é a realidade de um China em transição de valores. “O que fizemos foi mostrar uma situação real, na qual os pais buscam encontrar parceiros para os filhos, tentamos propiciar à audiência uma visão objetiva da situação”, explica.

Nem mesmo o ator Ian McKellen, famoso pelo seu papel de destaque no Senhor dos Anéis, furtou-se em fazer uma piada com um desses “cantinhos do amor”. Presente em uma mostra de cinema internacional de Xangai, ele visitou um desses locais e fez logo um anúncio próprio no qual anunciava: Ian, 1m80, 77 anos, Universidade de Cambridge, casa em Londres e ainda ativo. Desnecessário dizer que o post ganhou a internet.

Tudo isso denota que a demonstração dos afetos tem se tornado algo comum no país – óbvio que o assunto ainda está longe de ser tratado com a naturalidade sul-americana, por exemplo. A verdade, no entanto, é que as novas gerações de chineses encaram com mais facilidade o tema. Parece que a abertura econômica influenciou também nos hábitos dos jovens do país. Segundo Qian Ding, essa tendência também cresceu com os níveis mais altos de escolaridade. “As novas gerações sabem mais acerca do mundo, viajam ao exterior com frequência, então eles não mantém hábitos tão conservadores quanto os pais”.

Já não é raro testemunharmos jovens casais de mãos dadas nas grandes metrópoles; beijos em público, porém, ainda são raros. Mesmo assim, o amor vem conquistando o seu espaço nas cidades modernas. Está nas músicas, na publicidade, na literatura e agora, aparentemente, chegou às ruas. Em bairros como Sanlintun (三里屯), distrito boêmio de Pequim, “cantadas” e “elogios” já não são prerrogativa de apenas estrangeiros e turistas.

Na mesma esteira, cresceu o “mercado financeiro” do amor. Datas de comemoração de casamento, namoro, encontros, consolidaram-se no calendário e quem comemora é a indústria do país, que parece até mesmo incentivar essa recente mudança cultural. Mas esse hábito não é uma primazia dos chineses. No mundo todo ainda parece claro que namoro e presentes combinam muito bem.