” Marriott, saia da China! ” Rede é boicotada por considerar Tibete um país

A rede de hotéis Marriott comete erro grave em um dos seus maiores mercados, ao considerar Tibete, Taiwan, Hong Kong e Macau, como países independentes da China. Empresas precisam ter sensibilidade sobre este assunto ao fazer negócios com o país.

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Marriott sofre boicote na China
Marriott sofre boicote na China
Por Egle Bocanella, Correspondente em Xangai
Desde o último dia 11, a rede americana Marriott International, dona dos hotéis dessa marca, dos Renaissance, e dos emblemáticos Ritz Carlton, vêm sofrendo as duras consequências de um erro que pode ser facilmente cometido por empresas que fazem negócios com a China, por falta de preparo dos funcionários que desconhecem o país e sua cultura. Ao enviar uma pesquisa de satisfação online para os clientes de seu programa de fidelidade, a empresa pedia a eles que informassem seu país de origem, incluindo entre as opções Tibete, Taiwan, Hong Kong e Macau – todos territórios oficialmente chineses.

 

A situação das regiões

Apesar de ainda enfrentar alguns movimentos separatistas, o Tibete está sobre o controle da República Popular da China desde 1950, sendo considerada uma região autônoma.

Hong Kong e Macau voltaram ao controle chinês nos anos 90, após o período de colonização inglesa e portuguesa, respectivamente. São oficialmente denominadas regiões administrativas especiais, o que significa que têm maior autonomia e um sistema social diferente – capitalista e não socialista. As regiões têm suas próprias moedas – o dólar de Hong Kong e a Pataca, em Macau, e seus próprios passaportes.

 
Já Taiwan, chamada oficialmente de República da China, é considerada uma província separatista. O governo de Beijing sustenta a política da China Única. Segundo Lu Kang, porta-voz do ministério das Relações Exteriores, “no mundo existe apenas uma China. Taiwan é uma região inalienável do território chinês e o Governo da República Popular é o único governo legítimo”. A ilha pode não ser reconhecida como um país, mas tem sua própria presidente – eleita democraticamente, tem suas próprias leis e forças armadas. O território também é capitalista. 
 

Sensibilidade nos negócios

Apesar das diferentes denominações, é importante que as empresas entendam a sensibilidade deste assunto ao fazerem negócios com o país. “Nós acolhemos as empresas estrangeiras que querem investir na China. Ao mesmo tempo, elas devem respeitar a soberania chinesa e a nossa integridade territorial. Elas devem respeitar as nossas leis e os sentimentos dos chineses”, disse Lu Kang após a crise com a rede hoteleira.   
 
O problema se tornou ainda maior depois que usuários de mídias sociais identificaram uma curtida em um Tweet da conta Friends of Tibet, vinda do Programa de Fidelidade da Marriott, o que aconteceu logo depois da companhia ter pedido desculpas por seu primeiro erro.
A Administração do Ciberespaço da China ordenou que a versão chinesa do site da Marriott saísse do ar na semana passada, assim como seu aplicativo. A versão internacional permaneceu no ar. As autoridades solicitaram ainda reuniões com dois executivos da rede, ordenando que a empresa conduzisse revisões internas e correções. Plataformas de reservas online chinesas como a Dianping e Meituan também retiraram as propriedades do hotel de seus sistemas.
 

Versão chinesa do site diz que a página está sendo atualizada e reforça a mensagem de respeito à soberania e integridade territorial da China. 
A Marriott, que tem a China como um de seus maiores mercados, disse em comunicado oficial que irá tomar as ações disciplinares necessárias, o que pode levar à demissão de funcionários envolvidos, o encerramento do contrato com fornecedores, treinamentos e a revisão de processos e conteúdos. A empresa também prometeu colaborar nas investigações, junto às autoridades chinesas.
“A Marriott International respeita a soberania e a integridade territorial da China. Nós não apoiamos grupos separatistas que subvertam isso”, disse a companhia em comunicado e em um post no Twitter. “Nós sinceramente pedimos desculpas por qualquer ação que possa ter sugerido o contrário”.

Tweet da Marriott em resposta ao ocorrido.
A repercussão nas redes sociais chinesas foi grande e provou comentários inflamados. “Todos deveriam fazer o mesmo que eu e abandonar [a rede Marriott] em protesto. Vamos todos mudar para o Hilton”, disse um usuário, enquanto outros diziam: “Marriott, saia da China”.
A Marriott International, Inc. é uma empresa global com mais de 6.000 propriedades em 122 países e territórios. Em 2016 reportou uma receita de mais de 17 bilhões de dólares, tendo formado uma parceria com a gigante chinesa Alibaba.
Ainda na semana passada empresas como Delta Airlines, Zara e Medtronic também foram convocadas a dar explicações por erros similares. As empresas se desculparam e corrigiram as informações em seus websites.