A precarização da Uber pela DiDi começa pelo Brasil

Depois de comprar a operação chinesa da Uber, a DiDi entra com uma estratégia agressiva na América Latina, em busca da liderança global. 

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DiDi enfrenta o Uber
DiDi enfrenta o Uber

Por Verónica Goyzueta (São Paulo) e Egle Bocanella (Xangai)

O ano começou com uma grande tacada de uma empresa chinesa no mercado brasileiro. Desconhecida por aqui, a DiDi Chuxing deu um golpe de mestre no mercado global de transporte e de tecnologia. Ao comprar a 99taxis – a líder brasileira no mercado de aplicativos do segmento, passou por cima da Uber, empresa que em poucos anos virou sinônimo de um modelo de economia colaborativa, mas também de precarização do mercado de trabalho a partir da tecnologia.

Fundada em 2009, logo depois do primeiro grande crash da economia neste século, a Uber se espalhou rapidamente pelo mundo. A empresa aproveitou a necessidade de um transporte mais confortável e econômico. Assim, tornou-se uma oportunidade de trabalho para profissionais desempregados que tinham o carro como um dos poucos patrimônios para se reerguer financeiramente. Em poucos anos e com o aumento do desemprego internacional, o serviço de alta qualidade e segurança foi perdendo ambas virtudes.

E assim, do mesmo jeito em que a multinacional de San Francisco bateu na economia dos profissionais de classe média e de uma geração de jovens entusiastas na economia colaborativa, a empresa um dia passou a ser engolida pelo próprio modelo predador que criou. Algo como: Precariza! que serás Precarizado. Ou melhor… Uberiza! Que serás Uberizado.

As dificuldades globais da Uber começaram com sua entrada na China. Por lá, começou a enfrentar a rivalidade com a DiDi pelo mercado de táxis executivos. Após um prejuízo de US$ 2 bilhões que os norte-americanos tiveram ao entrar no mercado asiático, em agosto de 2016 a DiDi comprou a operação da Uber na China. Parte dos motivos estavam na incapacidade de adaptação a um mercado completamente diferente do ocidental. E foi assim que a DiDi Chuxing, a princípio uma cópia da Uber, superou o mestre e o comprou por US$ 1 bilhão.

Em 2017, a empresa asiática lançou uma versão em inglês de seu aplicativo. A iniciativa vem de acordo com o plano de expandir sua plataforma globalmente e facilitar a utilização dos serviços por estrangeiros.

A Uber passou então a focar seus investimentos na América Latina, com especial interesse no Brasil e no México. A concorrência estará ainda mais acirrada depois da compra da 99táxis pela DiDi, que tem interesse em entrar este ano também no mercado mexicano.

A Gigante DiDi

A missão chinesa de superar o Uber começou a se delinear em 2015. Na época a DiDi, então uma startup, recebeu US$ 600 milhões em investimentos dos fundos Coatue Management e Farallon Capital Management.

No segundo semestre de 2017, antes da chegada ao no Brasil, a valorização da DiDi já tinha disparado para US$ 50 bilhões. Tal fato converteu a empresa na segunda mais valiosa do mundo depois da Uber, com US$ 68 bilhões.

Com mais de 450 milhões de usuários na China, a Didi anunciou ter realizado 7,4 bilhões de corridas em 2017, o equivalente a 5 corridas por habitante em todo o país. Deste número, 1,1 bilhão de corridas foram feitas em táxis comuns. A empresa também informa que já funciona em mil cidades que alcançam um 60% da população mundial.

Presente na Índia, Cingapura, Europa, Oriente Médio e África, a Didi foi avaliada como uma das mais valiosas startups de tecnologia no mundo. É a única empresa a ter como investidores Alibaba, Tencent e Baidu, os três gigantes chineses do mercado de internet. 

DiDi do Brasil

“A globalização é a prioridade estratégica de Didi”, disse Cheng Wei, fundador e CEO de DiDi. O comentário veio ao comentar a compra de 99taxis, que provavelmente assumirá o nome chinês. A parceria entre as duas já existe há um ano. Na data, a DiDi anunciou o investimento de US$ 100 milhões na startup brasileira. Com isso, ganhou o direito a uma cadeira no conselho de administração.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, além de pagar US$ 600 milhões pela 99taxis, a DiDi planeja injetar outros US$ 300 milhões na empresa.

A rápida expansão do mercado de internet móvel no Brasil, aliado ao potencial de inovação do país, chamou a atenção da empresa. No Brasil, além da 99, os principais players são Uber, Easy Taxi e Cabify. Com mais de 500 mil motoristas e 17 milhões de usuários ativos nas mais de 100 cidades em que opera, a Uber ainda é o prestador preferido do brasileiro.

Hoje, a 99 tem mais de 300 mil motoristas e 14 milhões de usuários cadastrados em 550 cidades brasileiras. Além do táxi comum, a empresa oferece o 99Pop, de carros particulares – por enquanto disponíveis apenas em São Paulo, e o 99Top, táxis de alto padrão.

O objetivo da 99 é continuar a expansão de seus serviços pelo Brasil. O plano demanda investimentos para atrair passageiros e motoristas. Com a injeção de capital estrangeiro, além da expertise em tecnologia, inovação e operação trazida pela DiDi, a meta parece cada vez mais próxima da realidade.