Por que o futebol chinês cresce tanto?

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Torcedor chinês vestido de Mao Tsé-Tung vibra em partida realizada em Xi'an, na província de Shaanxi

Eu estava no auge da minha infância (aquela época maravilhosa em que você jogava bola todo santo dia) quando Roberto Carlos soltou aquela bomba e iniciou a goleada por 4 x 0 contra os chineses na vitoriosa Copa do Mundo de 2002. Era um aficionado por futebol, sabia de cor todos os jogadores de quase todas as seleções que estavam na conquista do penta, mas da seleção chinesa, estreante, eu não sabia nada.

15 anos se passaram desde então e ainda hoje não sei nada sobre a seleção da China. Contudo, o futebol chinês definitivamente deixou de passar batido, principalmente porque sou corinthiano e vi praticamente meu time sendo desmantelado por ofertas irrecusáveis de clubes da China nos últimos anos. Do time campeão brasileiro em 2015 saíram os titulares (todos já convocados para defender a amarelinha) Jadson, Ralf, Renato Augusto e Gil. Vi também outros ex-corinthianos de peso como Tévez, Paulo André, Jô, Jucilei -mil desculpas se alguém não gosta do Jucilão Pé de Cimento, mas pra mim ele é craque- e Alexandre Pato adentrarem o ainda fraco, mas muito rico, futebol chinês.

Mas por que a China, um país sem qualquer sombra de tradição e cultura futebolísticas, de repente passou a valorizar tanto o esporte ao ponto de gastar cerca de R$1,2 bilhões somente na última janela de transferências (só o ex-Chelsea, Oscar, custou R$242,5 milhões)?

Os brasileiros Oscar, Hulk e Elkeson jogam pelo Shanghai SIPG
Os brasileiros Oscar, Hulk e Elkeson, todos com histórico na seleção brasileira, jogam pelo Shanghai SIPG

Em poucas palavras, porque o Estado deseja. Ainda que a China se organize como uma economia de mercado, o Partido Comunista da China é o principal articulador dos interesses econômicos (e, portanto, políticos) do país. Assim, sendo o futebol uma poderosa arma de propaganda e até mesmo soft power, não é de se estranhar que a 2ª maior economia do mundo queira se tornar uma potência também no esporte mais popular do mundo.

Por isso, a estratégia dos chineses tem ido longe. Desde 2015, a China gastou mais de R$6 bilhões em aquisições nos clubes europeus, comprando fatias ou até mesmo a totalidade de clubes como os gigantes italianos Milan (Itália) e Inter de Milão (Itália) e o Manchester City, da Inglaterra, que também corre o risco de ver o tradicional Liverpool e o Hull City na mão de fundos de investimento chineses.

 

Além disso, ao oferecer salários exorbitantes, a fraca Superliga da China iniciada em 2004 tem cada vez mais procurado jogadores de destaque no cenário mundial. Tévez, recentemente contratado pelo Shanghai Shenua, é hoje o jogador mais bem pago do mundo, com um salário semanal de R$2,68 milhões. Um clube chinês tentou levar até mesmo o melhor do mundo Cristiano Ronaldo ao oferecer um salário anual de R$337 milhões, oferta recusada pelo craque português. Hoje, o mercado chinês já é o 5º maior do mundo.

E, como dito no começo da matéria, os brasileiros têm sido grande alvo do Dragão Chinês. No ano passado, o país tinha 28 jogadores no país. Em 2017, com apenas uma contratação no Brasil (Marinho) e a volta de Jadson, Jucilei, Jô, Montillo e Conca, os chineses diminuíram seu impacto no futebol brasileiro, mas estão longe de deixar de ser uma preocupação para os clubes. O São Paulo chegou até a pedir uma notificação da Fifa contra o assédio dos chineses aos jogadores.

Jogadores brasileiros na China

2007 (17)
2008 (26)
2009 (23)
2010 (24)
2011 (28)
2012 (29)
2013 (27)
2014 (27)
2015 (31)
2016 (28)
2017 (24)

Hoje, o futebol chinês conta com os seguintes jogadores:

Beijing Sinobo Guoan: Renato Augusto (meia) e Ralf (volante);

Changchun Yatai: Marinho (atacante) e Bruno Meneghel (atacante);

Chongqing Lifan: Fernandinho (atacante), Hyuri (atacante) e Alan Kardec (atacante);

Guangzhou Evergrande: Alan (atacante), Ricardo Goulart (atacante) e Paulinho (volante)

Guangzhou R&F: Renatinho (meia) e Júnior Urso (volante);

Hebei China Fortune: Aloísio (atacante) e Hernanes (meia);

Jiangsu Suning: Ramires (volante) e Alex Teixeira (atacante)

Shandong Lunneg: Gil (zagueiro) e Diego Tardelli (atacante).

Shanghai SIPG: Elkeson (atacante), Hulk (atacante) e Oscar (meia);

Tianjin Quanjian: Geuvânio (atacante), Júnior Moraes (atacante) e Alexandre Pato (atacante);

A Revolução no Futebol

Diferente de algumas ligas europeias, a China não pretende se tornar apenas uma grande liga famosa com times galáticos com jogadores de vários países que parecem ter sido editados no videogame. De olho em futuros craques nacionais, os chineses têm investido forte na cultura do futebol, trabalhando bastante na formação de jogadores.

Desse modo, pode-se dizer que a atração de jogadores de alta performance para o futebol chinês se encaixa muito bem dentro do plano de melhorar o nível dos jogadores chineses, uma estratégia muito parecida com o que a China vem adotando em sua economia internamente com as vantagens oferecidas a multinacionais em seu território.

No início do ano, a Associação Chinesa de Futebol anunciou novas regras para a Superliga, limitando a 3 o número de jogadores estrangeiros por partida em um único time. Outra medida para incentivar novos talentos é a exigência de que pelo menos dois jogadores chineses sub-23 estejam em campo em toda partida, sendo que um deles deverá começar o jogo como titular.

A China vive uma verdadeira revolução cultural no futebol

Estive na China, na cidade de Shenzhen, por quatro meses no meio de 2016 e pude ver de perto um pouco dessa realidade. Vi muitos campos de futebol, públicos e privados, espalhados por toda a cidade, sempre cheios de gente jogando. Não me assusta, portanto, a afirmação do presidente Xi Jinping, fã do esporte, de que a China será uma potência no futebol. A Associação Chinesa de Futebol promete colocar o país entre os melhores do mundo até 2050. Com o anúncio do 13° Plano Quinquenal, a China pretende alcançar um investimento de mais de R$1,4 trilhões em esportes, e, é claro, o futebol receberá uma boa fatia disso.

Nas partidas que joguei em Shenzhen durante minha estadia, vi chineses com muito mais noção de jogo e habilidade que boa parte dos europeus (com exceção dos italianos). Também encontrei, por acaso, ex-jogadores, principalmente brasileiros, atuando como professores de futebol.

Recentemente, o meia Chengdong Zhang do Beijing Guoan foi comprado por outro time chinês, o Hebei Fortune, por cerca de R$70 milhões, o que se configurou no maior valor pago por um jogador chinês na história.

Ainda que o meia possa parecer muito caro pela qualidade do seu futebol, a transação mostra que os chineses estão empenhados em construir um mercado interno qualificado e, portanto, passem a valorizar mais seus jogadores. Ainda que longe de alcançar um bom nível para competições internacionais (a China está em último lugar de seu grupo nas eliminatórias da Ásia para a Copa da Rússia e ocupa a 78ª posição no ranking da Fifa), não ficarei surpreso se, dentro de um futuro próximo a seleção chinesa aprenda com os brasileiros e dê, no mínimo, um pouco mais de trabalho para a seleção verde-amarela.