Os 20 anos de Hong Kong Chinesa

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Neste 1 de julho de 2017, a China comemorou seu 20º aniversário da reconquista de sua soberania sobre a península de Hong Kong. Embora ainda haja muita controvérsia se a cidade -ou país- é ou não controlada pelos chineses, é fato que o domínio inglês iniciado na região com as Guerras do Ópio acabou apenas nominalmente em 97. Hong Kong foi devolvida para os chineses através da Declaração Conjunta Sino-Britânica, assinada em 1985 pela então premier Margaret Tatcher, a Rainha Elizabeth e o presidente Li Xiannian.

Com mais de 150 anos de domínio inglês, a volta de Hong Kong para a soberania chinesa certamente não poderia ser tão simples. A abertura dos portos para a Europa desde 1842 e a subsequente cultura de mercado britânica enraizaram nos honcôngues um estilo de vida que só passou a existir na China após as reformas de Deng Xiaoping, no começo dos anos 80 com a abertura do mercado chinês. Não é de se estranhar, portanto, que Hong Kong tenha se tornado um problema para o Partido Comunista da China. Com a retomada dos chineses, a península se dividiu em duas facções políticas: a pró-Beijing e a pró-independência. Enquanto os primeiros advogam por uma retomada total de relações com a política da China, os segundos têm uma agenda de total separação.

Em 2014, Hong Kong foi palco dos maiores protestos contra o PCCh (Partido Comunista da China) desde o controverso episódio da praça Tian An Men, se mostrando uma grande pedra no sapato do Partido Comunista Chinês.  A China exerce hoje grande influência sobre os rumos da política de Hong Kong, o que ficou demonstrado com a eleição de Carrie Lam Cheng Yuet-ngor, honcôngue pró-China, para a chefia do Executivo.

O sonho de ter Hong Kong de volta retoma as origens do nacionalismo chinês, fortemente contrário ao domínio estrangeiro que perdurou por mais de um século e meio. Em 1982, o presidente Deng Xiaoping chegou até mesmo a ameaçar Margaret Tatcher de tomar a península a força em apenas um dia caso não houvesse acordo entre a China e o Reino Unido na questão de Hong Kong por conta desse sentimento.

Nos últimos anos, tem sido comum ver jornais chineses e honcôngues constantemente veiculando notícias polêmicas sobre professores, alunos e até mesmo empresários de Hong Kong desafiando os líderes do PCCh, assim como também é bem comum ouvir de cidadãos honcôngues, principalmente jovens, que o território não faz parte da China. Esse 1 de julho, portanto, foi um dia de intensas movimentações pró e contra o Dragão Asiático nas ruas de Hong Kong, principalmente por conta da 1a visita do presidente Xi Jinping ao território desde que assumiu o mais alto cargo do PCCh em 2012. Uma força-tarefa de 29.000 policiais foi mobilizada para o evento, a maior operação de segurança pública “anti-terrorismo” da história da China moderna.

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(manifestantes pró-independência protestam contra a presença de Xi Jinping em HK) Foto: 

Segundo os organizadores, a marcha pró-democracia de hoje chegou a 60.000 pessoas e teve manifestantes coagidos pela polícia local e manifestantes pró-Beijing. Já a polícia estimou o número em 14.500 pessoas, menor número desde o começo dos protestos em 2003. Para Au Nok-hin, líder do Partido Democrático em Hong Kong, a redução do número de manifestantes em relação aos anos anteriores se deu devido aos riscos cada vez maiores que estes passaram a sofrer cada vez mais com o crescimento dos protestos. Os grupos pró-separatismo estimavam uma marcha de pelo menos 100.000 pessoas para este sábado.

Mas como começou essa história de conflito?

China ou Inglaterra?

O Tratado de Nanquim, assinado em 29 de agosto de 1842, obrigou a abertura dos portos chineses do Cantão, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Xangai como resultado da Guerra do Ópio. Tal medida foi assinada após sucessivos massacres dos ingleses ao povo chinês na Guerra do Ópio, encerrando assim o monopólio comercial da dinastia Manchu sobre os portos.

Nesse mesmo tratado, os ingleses vitoriosos, interessados fundamentalmente no comércio marítimo, também levaram consigo o controle sobre um pequeno território de enorme valia por conta de sua vantajosa posição geográfica no comércio com a Ásia: surgia a Hong Kong britânica.

A princípio, os ingleses não tomaram conta de toda a região. Tomaram Kowloon (uma grande ilha da península) após a Segunda Guerra do Ópio (1856-1860) com a assinatura da Convenção de Pequim, e depois, em 1898, arrendaram os Novos Territórios (hoje a parte mais povoada de Hong Kong) por um período de 99 anos, novamente como resultado de um conflito vitorioso contra os chineses.

E foi em 1997, exatamente 99 anos após o arrendamento dos Novos Territórios pelos ingleses, que a China retomaria sua soberania sobre a cidade-país.

Entre os motivos apontados para a devolução do território pelos ingleses à China está principalmente a questão dos prováveis custos militares para se manter no território após o fim do arrendamento dos Novos Territórios, que se encerraria em 1 de julho de 1997. Como Kowloon e Novos Territórios se tornaram uma área praticamente uniforme a partir da expansão demográfica do processo de urbanização de Hong Kong, a manutenção do controle sobre Kowloon e a pequena ilha de Hong Kong, totalmente dependentes dos recursos da China, seria inviável militarmente*.

Contudo, o retorno da soberania chinesa sobre o território manteve suas bases jurídica, econômica e administrativa sob o sistema “um país, dois sistemas” criado pelo reformista Deng Xiaoping. Por isso, mesmo considerada de facto como território da China, Hong Kong se mantém como uma RAE (Região Administrativa Especial), com um chefe de governo executivo como chefe da região e um chefe de governo próprios, Constituição, moeda e até passaporte próprios, o que deve vigorar por pelo menos mais 30 anos, nos termos da Declaração Conjunta Sino-Britânica que cedeu a cidade de volta à RPC.

Cultura de Mercado

No controle da mais famosa monarquia do mundo por mais de 150 anos, a península começou a adquirir cultura uma cultura muito mais voltada para o comércio. Desse modo, se tornou diferente, literalmente uma ilha aparte, aonde os tradicionais hábitos familiares da China milenar, visceralmente ligada a tradições camponesas com recheio étnico, foram desaparecendo aos poucos.

Ainda que mais de 90% dos quase 8 milhões que vivam num dos territórios de maior densidade demográfica do mundo (HK tem apenas 1.104 km²) sejam chineses da maior das 55 etnias chinesas, a Han (漢族 em mandarim ou hàn zú no pinyin), que representa quase 95% de todo o território da China, o culto ao consumismo que prevalece em Hong Kong está mais próxima da Inglaterra e, principalmente, EUA do que da própria China. Além disso, enquanto a ex-colônia britânica possui um PIB per capta de pouco mais de U$43 mil, os chineses ainda não chegam a 1/5 disso.

Língua

Até mesmo na língua é possível delinear essas diferenças. Mesmo ainda considerada etnicamente uma província do Cantão, Hong Kong tem como idioma oficial além do mandarim padrão, pouco falado, o inglês. Porém, o idioma mais falado é o cantonês ‘de Hong Kong’ que se diferencia do cantonês da mainland (falado por todo o Cantão) por conta das terminologias que absorveu do domínio inglês ao longo desses mais de 150 anos.

Há de se notar que essa última diferença seja enfatizada como forma de protesto contra a ‘imposição da China’ de fazer prevalecer o mandarim como língua oficial em todo o seu território desde 1956.

*¹ http://www.scmp.com/article/48108/thatcher-reveals-dengs-threat-seize-hong-kong-day