O diplomata português João de Deus Ramos conta no seu livro de memórias ‘Em Torno da China – Memórias Diplomáticas’ sua aventura como encarregado de Negócios de ir para Beijing, quando em março de 1979, abriu a embaixada portuguesa, depois da retomada das relações diplomáticas entre os dois países, em 1974.

João de Deus Ramos tinha 36 anos e alguma experiência como diplomata na Ásia, depois de ter servido no Japão, mas a missão na China era um desafio, porque abriria a embaixada portuguesa na República Popular da China. O relato é muito interessante, porque, além disso, ele esteve presente em todos os momentos-chave das relações luso-chinesas, em especial a negociações sobre Macau, devolvida à China em dezembro de 1999.

Macau foi colonizada e administrada por Portugal durante mais de 400 anos, no século XVI, e é considerada o primeiro entreposto e a última colónia europeia na Ásia.

“Senti quando cheguei um grande entusiasmo. Estava numa das mais antigas civilizações do mundo e tinha pela frente um enorme desafio profissional. Por outro lado, lembro-me do ar nebuloso, cinzento, poeirento, desse final de inverno em Beijing, que nada tinha que ver com a cidade que hoje encontramos”, relembra o diplomata em entrevista ao jornal português DN.

No livro, Ramos conta que foi recebido por dois funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês que colocou a sua disposição um motorista e un carro de fabricação chinesa, cinzento-esverdeado, usado por entidades oficiais e táxis de luxo.

Na época ele recebeu a visita do português, António Graça de Abreu, que morava na China como professor de línguas e colaborava na revista China em Construção. Casado com uma chinesa, e com dois filhos pequenos, a família do futuro sinólogo e outro casal constituíam a comunidade portuguesa na China em 1979.

Ramos recebeu mais tarde a sua família, incluindo as duas filhas muito pequenas, e viveu em uma China que já não era a de Mao Tsé-tung (que morreu em 1976) e na que Deng Xiaoping começava a deixar a sua marca, abrindo o país às reformas económicas que mudaram o país.

“Tenho uma grande admiração por Deng como estadista. Conseguiu transformar para melhor a vida de mais de mil milhões de pessoas”, conta João de Deus Ramos, que conheceu o líder durante uma visita do governador de Macau, Melo Egídio, a Beijing, e o reencontrou nas negociações que culminaram em 1987 com a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau, pelos primeiros-ministros Aníbal Cavaco Silva e Zhao Ziyang.

Sobre a transferência de soberania de Macau, comenta ter sido inevitável e que “correu bem para Portugal e para a China”. Sobre o que pensam os chineses dos portugueses, tem opinião muito própria: “É evidente que a China sente certa “ternura” por Portugal. Conhecemo-los há mais de 500 anos e, como gostam de dizer, nunca os humilhámos como os outros europeus.”