Nova Rota da Seda: Um cinturão e uma rota tupiniquim

A China e um novo modelo internacional de negócios, representado pela nova Rota da Seda, ou melhor dizendo, “um cinturão e uma rota”.

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Um cinturão e uma Rota

Dada a necessidade de remodelação do sistema político, econômico e social mediante a criação de mecanismos internacionais que promovam a retomada do crescimento econômico mundial, bem como face o enorme desafio da China em transformar o modelo de crescimento interno por meio da criação de políticas públicas favoráveis ao aumento do consumo doméstico, o gigante asiático tem, sem sombra de dúvidas, chamado a atenção e despertado o interesse dos países, organismos e entidades internacionais ao propor um novo modelo internacional de negócios, representado pela nova Rota da Seda, ou melhor dizendo, “um cinturão e uma rota”.

Desde a abertura da China ao mercado exterior por Deng Xiaoping em 1978, o ingresso da China na OMC em 2001, a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) aos atuais debates para a criação da Parceria Econômica Regional Compreensiva (RCEP) com os parceiros regionais em contraposição à Parceria Transpacífico (TPP), é patente o esforço da China para superar os entraves que propiciem o desenvolvimento de seu mercado doméstico.

Nesse contexto, longe das taxas de crescimento econômico de dois dígitos perpetrados por quase 35 anos e mais interessada no crescimento sustentável e orgânico com base no padrão mais ocidental, hoje nomeado como “novo normal”, a China propôs, por meio do Cinturão Econômico da Rota da Seda (rota terrestre) e Rota da Seda Marítima do Século 21 (rota marítima), a cooperação regional, a colaboração no setor de energia, o desenvolvimento da infraestrutura, a comunicação de ideias e o estreitamento do intercâmbio cultural, com a possibilidade de participação e o envolvimento de mais de sessenta países, que ao representarem um PIB equivalente a USD 21 trilhões, implicará numa substancial transformação política, social e econômica do mundo.

É indiscutível que referido “um cinturão e uma rota” se trata de uma alternativa chinesa ao excesso de capacidade produtiva interna e, principalmente, ao arrefecimento do setor de construção doméstico, não havendo outra alternativa senão buscar outros parceiros para manutenção do seu crescimento e quiçá para o fortalecimento do seu Novo Império.

Por outro lado, é inegável a oportunidade criada aos parceiros no cinturão e na rota tanto do Leste Asiático, Ásia Central, Rússia e Europa, como também àqueles que ainda não fazem parte da nova Rota da Seda – dentre eles o Brasil.

Embora não incluído no referido modelo, o Brasil tem todos os instrumentos em mãos para, por meio do canal de comunicação criado pela Comissão Sino-Brasileira de Cooperação e Concertação (COSBAN), sugerir a extensão desse projeto para a América Latina, de forma a fortalecer o Plano de Ação Conjunta Brasil China – PAC II (2016-2021), dando continuidade aos objetivos, metas e orientações traçados por ambos os países às relações bilaterais, por meio da construção da Ferrovia Bioceânica Brasil-Peru, com extensão de 5.280 km ao custo estimado de USD 10 bilhões, projeto esse já em debate com a China, dado também o seu interesse econômico e experiência na construção de infraestrutura ferroviária.

Sem ignorar os desafios de construir a Ferrovia Bioceânica pela travessia dos Andes e a imperiosa necessidade de se estudar o impacto social e ambiental decorrente desse projeto, dada a queda do preço das commodities, nosso pilar de exportação (minério de ferro, petróleo, soja e celulose), ainda que tenhamos entraves burocráticos, riscos de corrupção e excesso de custos, a construção desse projeto de interligação do Oceano Atlântico ao Pacífico, um dos maiores projetos de infraestrutura na América Latina nos últimos 100 anos, pode ser a luz no fim do túnel que tanto esperamos diante desse caos institucional, político, econômico e social em que estamos afogados hoje.

Precisamos correr, pois, muitas vezes, o trem só passa uma vez.