A trading chinesa Cofco quer se tornar uma das maiores exportadoras brasileiras de grãos, um mercado dominado por gigantes como Bunge, Cargill, ADM e Louis Dreyfus. A empresa que controla a Noble Group e a Nidera, já está entre as cinco maiores, segundo dados de O Estado de São Paulo, a partir de dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC)

A quinta posição é da brasileira AMaggi, mas segundo o jornal a Cofco já passou na frente, considerando a soma dos volumes embarcados pela Nidera, na sexta posição, e da Noble, na décima colocação. Os chineses, que já compraram terras no Brasil, tem tido limitações com as leis que barram a propriedade de terrenos em mãos estrangeiras, e tem investido também na África.

A soja é um dos principais itens da exportação brasileira. Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) mostram que, para a safra 2015/16, os embarques do grão estão estimados em 52,8 milhões de toneladas e a produção, em 97,8 milhões de toneladas. A Abiove não comenta estratégia de suas associadas.

Desde que a China se tornou grande cliente da soja brasileira,- algo que tem pouco mais de 10 anos,- ganhou corpo no meio intelectual brasileiro a suposta excessiva dependência que o Brasil tem daquele mercado asiático. A pergunta que se faz é: é o Brasil que depende da China, ou o contrário? Trata-se de pergunta instigante e sem fácil resposta, mas sobre a qual cabem algumas considerações da indústria brasileira processadora de soja para tentar elucidar essa questão.

Antes disso, cabe lembrar que esse comércio é fruto de esforços importantes de ambos os lados. No Brasil, resultou de intenso trabalho de pesquisa e desenvolvimento da produção de soja, com esforços impressionantes também na consolidação das etapas da cadeia produtiva da soja, tais como financiamento agrícola, distribuição, armazenagem e processamento. Pelo lado chinês, as reformas econômicas propiciaram intenso desenvolvimento econômico e permitiram a diversificação dos hábitos alimentares e o impressionante aumento do consumo de proteínas animais.

Hoje, as exportações de soja para a China correspondem a cifras importantes. Em 2015, foram vendidas à China quase 41 milhões de toneladas de soja, equivalente a 52% de toda a importação realizada pelo país. Isso significou a entrada de divisas de cerca de US$ 15,8 bilhões, ou 8% de toda a exportação brasileira. Esses números soam preocupantes quando se imagina que eventuais ações unilaterais da China possam causar grandes estragos à economia brasileira, por exemplo, caso a China decida subitamente interromper as compras do produto brasileiro.

O ponto é que a China não tem outras opções no mercado. Os EUA e a Argentina não conseguiriam aumentar significativamente a produção, pois há intensa competição do cultivo da soja com outras lavouras, como o milho, o trigo e o algodão. Prova disso é que a safra de soja desses países tem crescido marginalmente nos últimos anos e os ganhos de produtividade têm se encarregado da maior parte do aumento da produção.

O Brasil é, e deverá ser ainda por muitos anos, o grande supridor de alimentos para o mercado chinês. Entre os produtores, é o único que reúne condições necessárias para garantir essa produção no longo prazo e, de quebra, a nova onda de urbanização que ocorrerá na China: 250 milhões de pessoas vão para as cidades nos próximos 10 anos, mais que toda a população brasileira.

Se temos essa condição favorável, por que não utilizá-la de forma racional e justa? Os chineses sabem bem o que querem e precisam. Têm investido em empresas de originação de grãos, infraestrutura logística etc. São empresas com forte participação estatal e, com certa frequência, operam com prejuízo. Sabemos que os chineses fazem isso porque sabem da importância de ter segurança alimentar e, por isso, investem pesadamente em empresas que lhe garantam essa condição em termos logísticos e tecnológicos.

O Brasil, por sua vez, sofre de miopia nessa relação bilateral. Subestima sua importância e seu potencial, e com isso desperdiça oportunidades importantes no mercado chinês. Não vê que é a China quem mais precisa de seu produto, e que a indústria brasileira pode obter vantagens importantes dessa relação. Sem o farelo proteico de soja, a China não poderia alimentar de forma eficiente as aves e suínos consumidos internamente, visto que o farelo de soja tem a melhor relação custo-benefício para formulação de rações. Sem o óleo, ficaria prejudicada toda uma indústria de óleos e gorduras.

É hora de construirmos uma nova relação comercial com a China. Temos condições de dar segurança aos chineses garantindo suprimentos crescentes de alimentos para o país. Isso certamente se dará na forma de soja em grão, mas não somente. Queremos vender bens de maior valor agregado, ter pauta mais diversificada e criar empregos no Brasil. Para cada emprego gerado pela exportação de soja in natura, é possível abrir o dobro de vagas de trabalho quando vendemos farelo e óleo bruto, ou o quádruplo quando vendemos carnes e óleo refinado.

A visão da Abiove é que mudar é possível, mas não será fácil. Os chineses são grandes negociadores e até agora usaram bem seu poder de barganha, sem grandes resistências do lado brasileiro. Mas é, acima de tudo, necessário reunir nossos melhores quadros técnicos e diplomáticos, governamentais e empresariais, na busca de um comércio no qual o Brasil coloque seus produtos não somente nos navios graneleiros, mas também nas gôndolas dos supermercados. A Abiove convida o governo brasileiro para o debate e se oferece para construir em conjunto essa nova proposta.