A famosa frase chinesa “crise é oportunidade” parece ter sido muito bem aprendida por Mark Zuckerberg, o dono da rede social mais popular em QUASE o mundo todo, menos na Asia. Assim, quando a China bloqueou o acesso ao Facebook, em 2009, Zuckerberg foi estudar mandarim e resolveu deixar clara a sua fascinação pelo oriente.

No último Ano Novo Chinês, em fevereiro, Zuckerberg gravou o seu segundo vídeo em mandarim, para parabenizar os cidadãos de um país que não trafegam na sua rede. Desta vez, além de desejar um Feliz Ano do Macaco, o empresário resolveu apresentar o nome chinês da sua filha, Máxima “Max” Zuckerberg, ou Chen Mingyu para os asiáticos. Na mensagem alegre e esperançosa, nenhuma reclamação ou comentário sobre as restrições que tem na China, apenas a imagem de uma exitosa família sino-americana, formada por ele, sua esposa – a médica descendente de chineses, Priscilla Chan-, e a pequena Max.

Não é a primeira vez que Mark se arrisca, incluso a ser criticado por seu sotaque carregado em mandarim. Ele já participou de dois encontros na Universidade Tsinghua, a mais importante da China, falando mandarim, o que por si só encanta a maioria dos chineses, mesmo quando admitem que não o entendem. “Se não fosse pelas legendas em inglês, eu não conseguiria entendê-lo”, escreveu um usuário da Sina Weibo, a versão chinesa do twitter, onde o segundo evento foi compartilhado. No primeiro, Zuckerberg participou de uma sessão de perguntas e respostas, e no segundo, fez um discurso de 20 minutos sobre o Facebook e a sua missão.

Na visita do presidente Xi Jinping aos Estados Unidos, em setembro, o CEO do Facebook mostrou os seus conhecimentos no idioma, que treina com livros chineses de ficção científica, e conseguiu com isso mais atenção do mandatário, que recebeu com simpatia o esforço linguistico do gringo. Segundo a CNN, Zuckerberg chegou a pedir ao presidente uma sugestão de nome chinês para sua filha. Xi Jinping, aliás, é um dos estudantes famosos da Tsinghua, onde se formou em engenharia.

Em dezembro, Lu Wei, responsável pela política de internet na China, declarou que não há planos para abrir o bloqueio a sites estrangeiros que chegam apenas para ganhar dinheiro, mas abriu uma janela: “Estamos abertos a todas as companhias de internet do mundo. Se não prejudicarem os interesses nacionais da China e dos consumidores, serão bem-vindos junto com o seu crescimento na China”, disse o político. Lu Wei visitou a sede do Facebook em 2014 e, segundo a Bloomberg, foi cumprimentado em mandarim por Zuckerberg, que fez questão de lhe mostrar sobre a sua mesa um exemplar de “The Governance of China”, livro de Xi Jinping, cuja leitura ele recomenda aos seus colaboradores. Não dá para deixar de comentar, aliás, que além de arrojado, Zuckerberg é um excelente puxa-saco.

Apostando na abertura

Mesmo bloqueado, o Facebook é conhecido na China e acessado através de redes privadas virtuais, mas nada que chegue perto das redes sociais chinesas, fortalecidas nestes anos pela muralha virtual. Por enquanto, a rede de Mark é mais conhecida pelo 404, o número do erro para páginas não encontradas, e que na China, para piorar, é um número que dá azar.

Mas se o bloqueio cair, pelo seu comportamento politicamente correto e os interesses chineses em ocidente, Zuckerberg terá acesso e ampla vantagem sobre uma população de 1,37 bilhão de pessoas, um número tão impressionante como a comunidade de 1,6 bilhão que já ostenta no Facebook. A China tem a maior base de internautas do mundo, e segundo a consultoria McKinsey, é o país mais ativo do planeta na web, e o que tem crescimento mais impressionante. Segundo dados divulgados por Lu Wei, na entrevista de dezembro, a China tem 4 milhões de websites, em torno de 700 milhões de internautas e 1,2 bilhão de usuários de celular.

No encontro em Washington, que reuniu outros CEOs norte-americanos, e empresários chineses, como Jack Ma, do Alibaba, o presidente Xi Jinping, ofereceu ampliar as oportunidades para investidores americanos na China e pediu aos Estados Unidos que também recebam as empresas chinesas, dando outro sinal de que a muralha pode cair se servir para promover negócios para os dois lados.

O Sina Weibo, por exemplo, negocia na bolsa de tecnologia Nasdaq, e o seu presidente Charles Chao, graduado em contabilidade pela Universidade do Texas, também tem seus olhos postos no ocidente. Já Jack Ma, dono do gigante Alibaba, tem mostrado avanços no seu inglês em entrevistas para a imprensa internacional.

Mesmo sem rede, o Facebook abriu em 2014 em Pequim, um escritório para receber os seus desenvolvedores e para vender anuncios de internet. E parece que tem tido bons resultados entre os consumidores chineses online, segundo contou Sheryl Sandberg, COO do Facebook, em uma conferência recente em Nova York.

O desgaste da RenRen

Os pequenos passos de Zuckerberg na China também estão ligados ao desgaste de quem seria o seu principal concorrente nesse país, a rede social RenRen, que tem reduzido o seu ritmo de crescimento e seu valor de mercado. Quando a RenRen lançou as suas ações na bolsa de Nova York (NYSE), em maio de 2011, elas chegaram a custar US$ 24, ancoradas nos seus 117 milhões de usuários da época, com um crescimento anual de 20%, e de seu pioneirismo em games de granjas, que se popularizaram no Facebook com cópias como a Farmville.

Mas a empresa fundada por Joseph Chen, agora é uma sombra desse sucesso em Wall Street. As ações da RenRen valiam apenas US$ 2,6 no começo de fevereiro, com um valor de mercado de US$ 943 milhões, praticamente 10 vezes menos que no seu curto auge. Já as ações do Facebook na Nasdaq, subiram no mesmo período, de US$ 38,2 a US$ 101, no começo de fevereiro, com um impressionante valor de mercado de US$ 287,5 bilhões. A RenRen já não aparece nem na lista das 60 páginas mais visitadas da China, e apesar dos seus 228 milhões de usuários, só 40 milhões deles tivos.

Chen, que não acompanhou o avanço dos smartphones entre os internautas chineses, tem perdido espaço para concorrentes como o Sina Weibo e o WeChat, uma espécie de WhatsApp, que tem 500 milhões de contas. É nesse cenário que Zuckerberg está pronto para desembarcar. Max Zuckerberg, ou melhor, Chen Mingyu, que significa “esperança de um futuro brilhante” em mandarim pode se preparar para herdar do pai visionário um verdadeiro negócio da China.